A ascensão do pentecostalismo: da religião à política. Entrevista especial com Christina Vital

Por: Patricia Fachin | 19 Abril 2017

O crescimento do pentecostalismo é um fenômeno que se expande para além da religião: ele “cresce ao mesmo tempo na base social e em espaços de poder, como mídia e cargos eletivos nacionais, estaduais e municipais”, diz a socióloga Christina Vital à IHU On-Line, na entrevista a seguir, concedida por e-mail. Um exemplo “bem-sucedido” dessa expansão na política, aponta, foi a vitória de Marcelo Crivella nas eleições municipais do Rio de Janeiro. “Quando Crivella foi eleito, a grande repercussão na mídia enfatizava aquela como uma vitória de sua denominação de origem. Mas não é esse o ponto: ele ganhou não por ser evangélico, mas porque fez inúmeras alianças na sociedade e tinha uma fala que contemplava anseios sociais. Teve alta votação em periferias, mas também ganhou em bairros da Zona Sul, como em Ipanema”, relata. Contudo, frisa, ainda é cedo para avaliar “em que medida o elemento religioso faz diferença nesse âmbito da gestão pública, porque o fato de a pessoa ter uma vinculação religiosa não necessariamente implica um atravessamento religioso institucional”.

Há décadas a socióloga tem acompanhado e estudado as periferias cariocas, especialmente na Zona Norte e na Baixada Fluminense. A partir da sua experiência, ela também comenta brevemente os dados da recente Pesquisa da Fundação Perseu Abramo, e pontua que entre os moradores das periferias cariocas “identificam-se esses valores liberais em termos econômicos”, mas “não em termos morais”.

Ela explica: “Isso é fruto de diferentes fatores, dentre os quais podemos destacar as inúmeras políticas urbanas e habitacionais que, embora precárias e insuficientes diante das demandas, produziram uma situação melhor do que a precariedade que marcava o início das ocupações em favelas e em periferias na Baixada Fluminense, por exemplo. Nos anos 1980 havia os mutirões nos quais moradores se reuniam em torno da ajuda aos outros. O contexto hoje é distinto em termos da estrutura física dessas localidades. Outro fator importante é o crescimento difuso de valores neoliberais em nossa sociedade e da Teologia da Prosperidade, que se apresenta não só nas denominações identificadas como neopentecostais, mas também se apresenta em denominações mais clássicas do pentecostalismo no Brasil”.


Christina Cunha durante evento no IHU
Foto: João Flores da Cunha | IHU

Christina Vital Cunha é professora do Programa de Pós-graduação em Cultura e Territorialidades da Universidade Federal Fluminense – PPCULT e do Departamento de Sociologia da mesma universidade. É doutora em Ciências Sociais pelo PPCIS/UERJ e mestra em Antropologia e Sociologia pelo IFCS/UFRJ. Integra a equipe de pesquisadores da Rede de Pesquisadores Luso-Böll Brasileiros de Artes e Intervenções Urbanas, coordenada por Glória Diógenes (UFC) e Ricardo Campos (Universidade Nova de Lisboa) e o grupo Religião, arte, materialidade, espaço público: grupo de antropologia, coordenado por Emerson Giumbelli (PPGAS-UFRGS). É autora dos livros Religião e Conflito, Ed. Prismas, 2016, em parceria com Melvina Araújo; Oração de Traficante: uma etnografia, Ed. Garamond, 2015; Religião e Política: uma análise da participação de parlamentares evangélicos sobre o direito de mulheres e de LGBTs no Brasil, 2012, em parceria com Paulo Victor Leites Lopes. É colaboradora ad hoc do Instituto de Estudos da Religião – ISER, desde 2002.

Juntamente com Paulo Victor Leite Lopes e Janayna Lui, Christina Vital Cunha acaba de publicar o livro Religião e Política: medos sociais, extremismo religioso e as eleições de 2014, Fundação Heinrich Böll: Instituto de Estudos da Religião, Rio de Janeiro, 2017.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Em quais periferias cariocas a senhora desenvolve a sua pesquisa?

Christina Vital – As pesquisas de iniciação científica, mestrado e doutorado foram em Acari e, posteriormente, no Santa Marta. No entanto, realizei trabalho de campo em outras localidades, ora como pesquisadora, ora como coordenadora, no projeto Favela Tem Memória, IBGE, Banco Mundial etc. As localidades são: Mangueira, Cantagalo e Pavão-Pavãozinho, Alemão, Vigário Geral, Conjuntos Habitacionais na Zona Norte e em favelas da Baixada Fluminense.

IHU On-Line – A partir das pesquisas que desenvolve nas periferias do Rio de Janeiro, como diria que a religiosidade ou a religião se manifesta na vida das pessoas que vivem na periferia?

Christina Vital – As religiões são experimentadas de diferentes modos, mais ou menos orgânicos. Isto é, as pessoas vivem, ao longo de suas trajetórias pessoais, momentos de maior ou menor engajamento junto a instituições e grupos religiosos. Contudo, a dimensão religiosa é muito significativa, seja em termos de estabelecer marcadores temporais e de sociabilidade, seja na economia ou na política.

IHU On-Line – A cultura pentecostal é predominante nas periferias hoje? Por quê? Há uma razão que explique por que as pessoas aderem ao pentecostalismo e não a outras religiões?

Christina Vital – O pentecostalismo é crescente nas cidades e nestes espaços, sobretudo em áreas periféricas e em favelas, e as estatísticas possibilitam essa identificação, além da observação direta realizada por uma gama crescente de pesquisadores que acompanham esse fenômeno.

As razões deste crescimento são muitas. Desde estratégias propriamente institucionais até os anseios privados, que giram em torno de demandas motivacionais. Por exemplo, as igrejas evangélicas estabelecem uma proximidade com o seu público, proporcionam espaços de encontro diários, fazem aconselhamentos espirituais, mas também emocionais e financeiros/profissionais. Seus pastores são, via de regra, muito disponíveis aos fiéis. Geralmente moram nas mesmas áreas e estabelecem grande empatia porque vivem condições muito semelhantes aos demais. Do ponto de vista institucional, como a maioria tem um modelo de governo congregacional, não precisam se subordinar a um ministério, nem a uma centralidade administrativa.

IHU On-Line – Essa cultura ou adesão pentecostal se expressa em outras esferas da vida das pessoas que vivem nas periferias, como a comportamental, política, social etc.? De que modo?

Christina Vital – Sem dúvida. Qualquer experiência religiosa é englobante e se manifesta na relação com diferentes dimensões da vida pública das pessoas. Sobretudo em se tratando de religiões monoteístas. Sendo assim, observamos o crescimento da participação de pentecostais na organização política local, social e também econômica, com a abertura de variados comércios com uma marca gospel e que difere, por exemplo, do comércio que sustentava o circuito do tráfico até meados dos anos 1990.

IHU On-Line – Como a senhora compreende o fenômeno do pentecostalismo no Brasil hoje? Ele é já é quase dominante no âmbito das religiões? Por quê?

O catolicismo é dominante no Brasil em diferentes aspectos, mas o pentecostalismo cresce ao mesmo tempo na base social e em espaços de poder, como mídia e cargos eletivos nacionais, estaduais e municipais

Christina Vital – O catolicismo é dominante no Brasil em diferentes aspectos, mas o pentecostalismo cresce ao mesmo tempo na base social e em espaços de poder, como mídia e cargos eletivos nacionais, estaduais e municipais. Sendo assim, ganham muita visibilidade, embora, em termos percentuais, sejam minoritários em relação aos católicos.

IHU On-Line – Alguns pesquisadores têm defendido que em nenhuma organização política, incluindo os coletivos de esquerda, a mulher e o homem comum têm tanto e tão rápido protagonismo quanto em uma igreja evangélica pentecostal e que as comunidades religiosas são a maior experiência de empoderamento individual e coletivo das classes populares das periferias. Concorda? Como isso se manifesta nas periferias que você conhece?

Christina Vital – Isso é muito verdadeiro e apresenta aspectos muito positivos em termos das vidas individuais e de transformações coletivas que vão em diferentes sentidos: desde uma ação mais engajada de esquerda até ações mais afinadas com interesses neoliberais.

IHU On-Line – Que outras expressões religiosas estão presentes na periferia e qual é a adesão das pessoas a elas?

Christina Vital – As religiões afro-brasileiras ainda estão presentes em favelas e periferias. São minoritárias em termos do impacto coletivo e de ocupação do espaço público, mas existem e resistem a inúmeras situações de violência patrimonial contra elas, assim como violências morais que atingem lideranças e adeptos. Mas, para além de um contexto social presente que escancara a intolerância em relação a essas tradições, pesa o fato de que não são religiões de conversão, de salvação e por isso não disputam mesmo esses espaços de poder. São religiões conhecidas como do segredo.

IHU On-Line – Em outra entrevista que nos concedeu, a senhora mencionou que tem havido um movimento de formação de espaços de oração islâmica nas favelas e algumas pessoas estão se convertendo ao islã. Como e desde quando tem ocorrido esse processo? Por quais razões as pessoas estão se convertendo?

Christina Vital – Não sou especialista em islamismo. Outros pesquisadores no Brasil teriam mais dados. Mas ocorre que em algumas periferias urbanas, o crescimento do islamismo vem sendo identificado, como, por exemplo, em São Paulo. As razões, como em qualquer fenômeno social, podem ser muitas: desde um desejo de vinculação institucional que proporcione segurança até o sentido de integração a um movimento novo, desafiador e que tem grande proporção internacional.

IHU On-Line – Um dos temas da sua investigação é a atuação do tráfico nas periferias. Como o tráfico se estrutura e atua nas periferias e de que modo ele interfere na vida das pessoas?

Todas as favelas e periferias são controladas por alguma força armada legal ou ilegal

Christina Vital – Todas as favelas e periferias são controladas por alguma força armada legal ou ilegal. Mais ilegal. Ou seja, a vida das pessoas nessas áreas é sempre marcada por uma perspectiva de guerra, de conflito. As armas estão sempre presentes e o medo de mudanças abruptas na sociabilidade está na ordem do dia. Há diferenças em termos de atuação dos bandos armados, logo, de traficantes e milicianos. Não incorreria no erro de sinalizar qual é melhor para a vida local, porque não é disso que se trata. Todas elas são nocivas. Em termos de estratégias, há coisas comuns: controle territorial com vistas a se protegerem das investidas policiais e de outros bandos armados. Esse controle passa também, em muitos casos, por uma tentativa de produção de relações de “boa vizinhança” e agrados à comunidade imaginada das favelas e periferias.

IHU On-Line – Alguns especialistas têm alertado para a ocupação dos conjuntos habitacionais do Minha Casa Minha Vida pelo tráfico. Isso tem acontecido nas periferias do Rio de Janeiro?

Christina Vital – Não só o tráfico, mas, talvez de modo mais significativo, as milícias. Esta conformação se apresenta como um enorme desafio à política pública, porque os modos de ação são intimidadores e de uma força absolutamente desigual. A insegurança se torna grande e, neste sentido, novamente, as religiões se apresentam como um recurso fundamental na produção de redes de proteção e segurança espiritual e material.

IHU On-Line – Uma recente pesquisa da Fundação Perseu Abramo indica que os moradores das periferias aderem a valores como o individualismo, a competitividade, a ascensão pelo mérito e trabalho, a eficiência etc. Esses valores devem ser vistos como isolados ou ao lado deles são cultivados outros, como o de solidariedade ao ajudar o vizinho, por exemplo?

Christina Vital – Sem dúvida há uma convivência de valores, contudo, em termos de predomínio, identificam-se esses valores liberais em termos econômicos, não em termos morais. Isso é fruto de diferentes fatores, dentre os quais podemos destacar as inúmeras políticas urbanas e habitacionais que, embora precárias e insuficientes diante das demandas, produziram uma situação melhor do que a precariedade que marcava o início das ocupações em favelas e em periferias na Baixada Fluminense, por exemplo. Nos anos 1980 havia os mutirões nos quais moradores se reuniam em torno da ajuda aos outros. O contexto hoje é distinto em termos da estrutura física dessas localidades. Outro fator importante é o crescimento difuso de valores neoliberais em nossa sociedade e da Teologia da Prosperidade, que se apresenta não só nas denominações identificadas como neopentecostais, mas também se apresenta em denominações mais clássicas do pentecostalismo no Brasil.

IHU On-Line – As pautas da esquerda ainda podem oferecer um horizonte para as pessoas que vivem nas periferias?

Christina Vital – Certamente, mas vive o desafio de combinar uma pauta liberal em termos morais com os anseios de uma camada social que é majoritariamente conservadora nesses termos. Para além disso, terá que mobilizar as massas por um discurso que combine perspectivas democráticas, participativas, mas que fale aos corações das pessoas. Identificar sentimentos sociais e dialogar com eles é uma estratégia fundamental e que a esquerda não deve ter medo em mobilizar como um instrumento legítimo de assumir o poder, se é esta mesma a pretensão e não somente “marcar posição”. Isso vale, sobretudo, para cargos executivos.

IHU On-Line – Como analisa a vitória de Marcelo Crivella na última eleição municipal do Rio de Janeiro?

Christina Vital – A candidatura de Marcelo Crivella foi significativa nesse contexto de novas estratégias de ascensão evangélica no poder. Em 2014 o bispo Robson Rodovalho, que é da Igreja Sara Nossa Terra, fez uma carta à sociedade brasileira, dizendo que os evangélicos que ontem eram pedintes, hoje são negociadores, ou seja, ele falava de um novo lugar dos evangélicos na sociedade e de uma nova estratégia de poder, de ocupação de cargos executivos. Em 2016 eles acompanharam várias candidaturas às prefeituras e a eleição de Crivella no Rio de Janeiro foi uma dessas candidaturas que teve sucesso. Estamos acompanhando em que medida o elemento religioso faz diferença nesse âmbito da gestão pública, porque o fato de a pessoa ter uma vinculação religiosa não necessariamente implica um atravessamento religioso institucional.

A gestão de Crivella ainda teve pouca visibilidade em termos de ações políticas. Havia uma grande expectativa quanto à gestão dele. No dia da posse ele assinou 39 decretos, doou sangue, e todo mundo achou que ele faria uma série de ações na sequência. Talvez até no mesmo estilo de Doria, em São Paulo, apostando em uma grande exposição na mídia. No entanto, isso não se concretizou e suas poucas aparições têm sido apresentadas negativamente por analistas políticos e colunistas. Há sempre um tom acusatório e duvidoso em torno de sua capacidade política e administrativa.

No geral, para a prefeitura as pessoas querem “um síndico” para executar ações, resolver problemas cotidianos, e ele se apresentava como o candidato que chegava para resolve

Quando Crivella foi eleito, a grande repercussão na mídia enfatizava aquela como uma vitória de sua denominação de origem. Mas não é esse o ponto: ele ganhou não por ser evangélico, mas porque fez inúmeras alianças na sociedade e tinha uma fala que contemplava anseios sociais. Teve alta votação em periferias, mas também ganhou em bairros da Zona Sul, como em Ipanema. Outra questão é que, no geral, para a prefeitura as pessoas querem “um síndico” para executar ações, resolver problemas cotidianos e ele se apresentava como o candidato que chegava para resolver, em contraposição ao candidato opositor no segundo turno, que tinha mais um discurso exaltando a participação popular. Além disso, ele estava no décimo pleito e, do ponto de vista político, isso é importante, porque ele já era um nome conhecido. Elaborava, ainda, um discurso centrado no cuidado na gestão, cuidado com as pessoas, e todo mundo que já foi pobre ou já pesquisou em periferias sabe como as pessoas se sentem abandonadas e preteridas pelo poder público. Seu apelo ao cuidado, novamente, calou forte com os anseios públicos.

IHU On-Line – Diria que a participação dos católicos é menos visível do que a dos evangélicos no Congresso?

Christina Vital – Hoje existem três frentes religiosas no Congresso. A Pastoral Parlamentar Católica, de 1991, tinha uma atuação que é característica da atuação católica, que era feita sem cargos diretos, ou seja, era uma política feita por influências. Em 1993, surgiu a Frente Parlamentar Evangélica, que foi reestruturada em 2003, e hoje tem sete agendas de interesses, sendo que cada uma delas têm um assessor e um parlamentar responsável. Existe ainda a Frente Parlamentar de Terreiros, que foi criada em 2011, e a Frente Parlamentar Católica, de 2015, que é diferente da Pastoral Parlamentar Católica, ou seja, ela é confessional e bastante conservadora. Essa Frente é liderada pelo deputado Givaldo Carimbão (PROS-AL) e foi espelhada na Frente Parlamentar Evangélica. Em seus primeiros pronunciamentos, Carimbão disse que os objetivos da Frente eram proteger a Bíblia dos ataques que a Constituição fazia a ela, operando por uma retorsão do argumento. Quer dizer, se o movimento social e diferentes atores na sociedade dizem que os cristãos estão comprometendo as garantias constitucionais ao defenderem essas agendas morais ditas como “agendas do Reino”, ele diz o contrário, articulando a mesma base argumentativa.

IHU On-Line – Mas essa frente não tem muita visibilidade?

Christina Vital – Sim, não tem. Em parte por uma razão que a pesquisadora Magali Cunha já veio mostrando: na mídia chamada de massa, as aparições católicas são majoritariamente positivas, em contraposição às evangélicas, por exemplo, quase sempre negativas. E isso não é um espelho da realidade. Trata-se de uma opção narrativa. Por outro lado, em meio ao próprio catolicismo institucional, há críticas à Frente Parlamentar Católica, embora a fundação da Frente tenha sido feita em meio a uma cerimônia organizada pela CNBB da qual participaram 40 deputados e na qual tomou posse o presidente da FPC, Givaldo Carimbão, em maio de 2015.

IHU On-Line – Que cenários vislumbra para as eleições de 2018, considerando o que seu grupo de pesquisa está pesquisando sobre a relação entre política e religião?

Christina Vital – O cenário ainda é incerto, mas Bolsonaro é uma figura que já vem tentando se candidatar à presidência desde 2010. Em 2014 houve nova tentativa, sem sucesso. Algum tempo depois, foi batizado no Rio Jordão pelo pastor Everaldo, da Assembleia de Deus de Madureira, presidente do PSC, partido ao qual se filiou. Seu nome foi lançado à Presidência da República em 2018, mas há muitas controvérsias em torno. É preciso acompanhar.

IHU On-Line – Em que consiste sua pesquisa sobre amorificação?

Christina Vital – Venho acompanhando inscrições religiosas nas cidades e a formação de uma paisagem amorificada. Esse tipo de inscrição ficou bastante conhecido no Rio de Janeiro desde os trabalhos do poeta Gentileza. Ele fez várias inscrições em pilares de viadutos no Rio de Janeiro. Ele usava vestes brancas, tinha um cabelo comprido e era considerado “louco” por muitos, até o momento em que, no âmbito da cultura, as pessoas começaram a ver um potencial no trabalho, em inscrições tais como “Gentileza gera gentileza”. A obra dele foi tombada pela prefeitura do Rio nos anos 2000.

Eu acompanho grafites “amorificados” na cidade, inicialmente buscando compreender relações entre arte e religião. Mais recentemente buscando entender como o amor se manifesta no espaço público em diferentes modalidades: política institucional, mercado, religião, uma linguagem para reivindicar transformação social. Para isso, acompanho trabalhos e trajetórias artísticas de alguns grafiteiros na cidade de variadas camadas sociais.

IHU On-Line – Quem são os grafiteiros com quem trabalha?

O grafite sempre foi alvo de ações públicas que visavam ora a sua regulação, ora ao seu desaparecimento

Christina Vital – Acompanho os trabalhos de Wark da Rocinha, Meton Jofilly, Rafael Hiran, André Soldado, Zanon, Villas, Bernardo Norte, Zoup, Ment, entre tantos outros. Eles têm variadas origens sociais e cada um tem sua marca estética, cada um produz uma identidade visual a partir de sua arte.

IHU On-Line – Como vê a posição do prefeito Doria, de limpar a cidade?

Christina Vital – O grafite sempre foi alvo de ações públicas que visavam ora a sua regulação, ora ao seu desaparecimento. Estas políticas emergem em onda ora de desvalorização, ora como meio de identificação pública das cidades para fora. Doria está investindo na “ordenação” da cidade apagando inscrições históricas, algumas reconhecidas internacionalmente como expressão artística absolutamente original. Neste caso em especial, justamente aquelas inscrições em preto identificadas por boa parte da população citadina como “sujeira”, “poluição visual”: o “pixo”. Eduardo Paes já produziu ações de “limpeza” de muros da cidade, mas, do meio para o fim de sua gestão, identificou no grafite uma linguagem importante na arte contemporânea, na street art, como um meio de apresentar a cidade como um espaço moderno, arrojado. Assim, a linguagem visual da Cidade Olímpica, por exemplo, foi o grafite.

Assista ao vídeo da conferência Cultura pentecostal no Brasil contemporâneo: periferias urbanas em foco, proferida por Christina Vital, em 03-04-2017:

The Future of Human Augmentation and Performance Enhancement

In most of our science fiction and our projections of the future, everything has changed—we have robots, flying cars, artificial intelligence, warp speed, laser swords–but we remain pretty much the same. Humans of the future are exactly the same physically and mentally as humans today.

In science fiction, this is probably necessary for dramatic purposes. You want the audience to identify with your characters, and that’s harder to do if those characters are too strange and different. When science fiction does touch on the idea of genetic or cybernetic enhancements, it usually does so as a dystopian cautionary tale. Even the Star Trek franchise, our usual go-to source for an optimistic take on the future, becomes notably technophobic when it comes to human augmentation. The idea of cybernetic enhancements, of bionic limbs and brain implants, gave the Star Trek universe its most menacing antagonist: the Borg. As for the idea of genetic enhancements, well, let’s just sum up Star Trek’s attitude this way.

Yet those enhancements are coming, and some of the technology is here or nearly here. We had better start giving serious, realistic consideration to how it can be used, how it will be used, and what we should think about it.

The concept of human augmentation, which is also called human performance enhancement or HPE, tends not to receive much attention because it is diffuse. It encompasses a range of technologies across very different disciplines. It’s helpful to gather them together under one heading and survey the different ways in which we humans might potentially alter our own nature.

There are five main areas where we are currently pursuing human augmentation.

1. Bionics and Prosthetics

This is the form of human augmentation that is already being tested out for a small number of special users. You can even go to a Cyborg Olympics, a competition to test whose bionic limbs and robotics exoskeletons are the best.

[T]he Paralympics celebrates exclusively human performance: athletes must use commercially available devices that run on muscle power alone. But the Cybathlon honors technology and innovation. Its champions will use powered prostheses, often straight out of the lab, and are called pilots rather than athletes. The hope is that devices trialed in the games will accelerate technology development and eventually be used by people around the world.

Note that this is not about improving or enhancing existing human capabilities so much as it is about restoring capabilities to those who have lost them. But that is largely due to the limits of the technology, to the fact that a bionic arm is still much less dexterous than a normal human arm. At some point, however, this technology will become good enough that it will offer the prospect of enhancing existing human abilities.

We’re a very long way from the point where anyone would be tempted to amputate a normal limb in order to replace it with a cybernetic version, though that is the ultimate vision of a few scientists and entrepreneurs, and it is already reflected in some fictional portrayals. Will Rossellini, the CEO of a neurotechnology company who also served as an adviser for the latest Deus Ex video game, predicts that “our bodies are going to look more like cars in the future, where we are making parts that will fit into anybody’s system, where we are upgrading parts the way we upgrade a cell phone.”

The more likely alternative that is already being implemented in real life is the use of robotic exoskeletons, which don’t replace the normal human body but give it extra strength and in some cases extra dexterity.

They are already being used to help the paralyzed walk or as a robotic glove to help those with limited strength or range of motion in their hands. And exoskeletons are beginning to be used in industrial applications and in the military, which sees a lot of value in a system that could help a soldier travel farther and faster and carry heavier loads with less fatigue.

The ultimate goal for military applications is an armored robotic super-suit—yes, like in “Iron Man.” As I quipped a number of years ago, the future is less likely to look like the Terminator movies, with soft, weak unenhanced humans battling indestructible killer robots, and will look more like the climactic battle in Aliens, where Sigourney Weaver dons a massive industrial forklift suit to battle the alien monster.

Or, on a more prosaic level, it will look more like Keahi Seymour, the engineer who has created stilt-like bionic boots that allow him to run at astonishingly fast speeds. We think of industrial and military applications for bionic enhancements, but also think of, say, Ultimate Frisbee played with bionic extensions for the legs and hands.

As we contemplate integrating machines with the human body, we face a number of difficult hurdles. These machines need better power supplies so that bionically enhanced humans don’t have to be tethered by power cords. For all of the recent advances in battery technology, the human body is still far more advanced when it comes to carrying its own fuel and power supply. Moreover, to operate like real human limbs, or alongside real human limbs, robotic enhancements need a sensitive sense of touch. Both of these problems are dealt with in a recent attempt to create an artificial skin that detects touch and derives power from sunlight. But there’s still a very long way to go.

So let’s sum up:

The Promise: An end to physical disabilities, with bionics replacing lost eyes, ears, and limbs—and the prospect of enhancing the able-bodied with super-human strength, speed, and stamina.

The Questions: Would people eventually feel pressure or temptation to remove healthy limbs or organs in favor of enhanced bionic replacements, and would that be a good thing?

One of the biggest challenges is to coordinate our bionic or robotic augmentations with the brain—to send signals back and forth across the barrier between our mechanical enhancements and our biological nervous system—so that you will be able to pilot a robotic exoskeleton with the same ease with which you move one of your own limbs.

The need for such an interface leads us to the next major category of human augmentation.

2. Brain-Computer Interfaces

Brain-computer interfaces, or BCIs, are being tested for use in controlling artificial limbs for the disabled, and for communication with those who are “locked in” due to spinal cord injuries—or even for reversing paralysis through a “neural bypass” that allows the brain to communicate directly with the muscles.

This is beginning on a small scale. Arguably, the world’s first real cyborgs are people with cochlear implants to restore their hearing. Retinal implants are about 30 years behind but are improving.

Brain-computer interfaces have to overcome some basic problems. External systems, like brain-scanning headsets, should in theory be able to detect activity in the brain with enough detail to tell when you are thinking of a certain word, or when you are thinking about moving in a particular direction. This capability is being explored as a way of controlling your avatar in virtual reality, for example, and it has even spawned a Star Wars-themed “force training” toy that works by detecting a certain type of concentration. But these headsets can’t project information back into the brain, and they still have very limited detail and resolution.

“The quality and fidelity of the data depends upon how many EEG sensor contact points will be able to make a direction connection to the skin on your scalp. The more sensors that available will provide better data, but may be more inconvenient to use. Since the most crucial contact points are at the same place as to where the VR straps are at, then using EEG input for a input to a VR experience may require a custom integrated headset.”

Internal implants face their own set of limitations. Metal and electronics don’t tend to mix well with flesh and chemicals, and the formation of scar tissue over implanted electrodes degrades their function over time. There have been recent experiments with implants that sit on top of the brain and project magnetic fields into it, which can be focused very precisely, sending signals from an artificial retina into the brain.

Project this out far enough and you might get virtual reality and augmented reality coming from inside your head. Or phone calls coming to you as voices in your head. Or you will find yourself talking to someone and notice that they get a far-off look in their eyes for a moment, and that’s because they’re looking up a fact on Google so they can bring it back into your conversation.

This technology, whenever it arrives, will revolutionize how we interface with our devices and with the growing digital world around us. The best interface with our technology is not to point and click and scroll through menus. The best interface is no interface. It’s to interact with our devices the way we interact with our hands and feet and eyelids. We just think it and it happens.

As Elon Musk explains it, “We’re already cyborgs. Your phone and your computer are extensions of you, but the interface is through finger movements or speech, which are very slow.” The prospect is to augment our thinking more swiftly and directly by connecting it to the cloud and even to the Internet.

But could this also change the very way we think? In augmenting our brains, will we alter them? What if you could use all of the Internet as an extended memory bank—and would that be a particularly wise thing to do? Certainly, getting ranked first in Google search results would become even more valuable if companies knew the results were being beamed directly into people’s heads. And imagine the fierce editing wars when people use Wikipedia as a kind of collective memory. That is, more so than we do already.

These are issues we are already struggling with just because people spend a lot of time squinting at hand-held electronic devices. Bringing the devices into our brains magnifies the issues in scope and intensity.

Let’s sum up:

The Promise: Faster, seamless access to information and to interaction with our machines.

The Questions: Will this result in an even greater dependence on our devices? Could it lead to a real life version of this cartoon?

Even when we want to, it will be harder to tune out our devices when they’re a part of us. So will the future of BCIs make it even harder for people to slow down and interact with the real world?

These enhancements aren’t ready yet, but a lot of capital is being poured into them. Elon Musk just announced the launch of Neuralink which is working on a “neural lace” brain-machine interface. He joins another Silicon Valley entrepreneur, Bryan Johnson, whose Kernel start-up is working on the same problem.

But Kernel isn’t just trying to make neural interfaces for our machines. It’s also experimenting with ways to change and enhance the functioning of our brains. That’s an even more radical notion and leads us to the next form of future human enhancement.

3. Neurotechnology

This is the most speculative technology of all, because we still know so little about how the human brain works, which limits our ability to affect that function in a beneficial way.

Current efforts, particular under Bryan Johnson’s Kernel, are focusing on “neuroprosthetics” to enhance memory by breaking the code for the storage and retrieval of memories in a part of the brain called the hippocampus, which can then be augmented by an implant.

Notice that neuroprosthetics are following the same path as mechanical prosthetics: they are being proposed first as an attempt to restore normal functioning to the impaired. Which makes sense. If it is morally and practically questionable to remove a healthy limb in favor of an enhanced bionic replacement, think how much more questionable it would be to intervene in a healthy brain in pursuit of some speculative new enhancement. So it makes sense that this technology will be tested out first in patients who are already facing the progressive loss of their mental faculties and thus have less to lose by trying to stem the deterioration.

At some point, however, this technology is going to be perfected to the point where it will be considered a valuable enhancement. What if you could, for example, draw on perfect recall of all the events in your life—every meeting, every conversation, every piece of music? What if you could sort through data more rapidly and notice new connections?

Elon Musk has suggested that this is what we will need to do to keep artificial intelligence from making us obsolete, but I think Bryan Johnson’s perspective is more interesting: that the difference between us and the machine will be moot. Johnson hails an era of HI, human intelligence, seamlessly augmented by AI, artificial intelligence.

[I]t is already obvious that humans and AIs will be able to form a dizzying variety of combinations to create new kinds of art, science, wealth and meaning. What could we do if the humans in the picture were enhanced in powerful ways? What might happen if every human had perfect memory, for instance?In short, we are poised for an explosive, generative epoch of massively increased human capability through a Cambrian explosion of possibilities represented by the simple equation: HI+AI. When HI combines with AI, we will have the most significant advancement to our capabilities of thought, creativity and intelligence that we will have ever had in history.

To sum up:

The Promise: Building enhanced mental function, possibly even some form of super-intelligence, into our own brains instead of building it into a separate computer.

The Questions: What are the side-effects and potential long-term consequences of altering our brain functions with implants?

Consider one of the reasons steroids are banned in most sports. When one player begins taking steroids, this can enhance his performance so dramatically that everyone else feels the need to take them to remain competitive—but then everyone ends up experiencing the side effects, both immediately and in the long term. So one reason for banning steroids is to keep athletes from ruining their bodies in an attempt to keep up with their enhanced rivals.

When it comes to neurotechnology, we can call this the Total Recall Principle, after the 1990 film in which a friend advises Arnold Schwarzenegger’s character (in somewhat earthier language), “Don’t mess with your brain.” If you think it’s going to take us a long time to trust self-driving cars, it’s going to take us much longer to trust machines to help us drive our brains.

Speaking of steroids, that brings us to our next form of enhancement. Using electronic implants to affect our brain functions is a radical and difficult step. Instead, we could just try doing it the old-fashioned way: with pharmaceuticals.

4. Nootropics

We are all familiar—some of us more so than others—with psychotropic drugs that affect mood and perception. Nootropic drugs (from nous, the Greek word for “mind”) are drugs that affect and in theory enhance the process of thinking. The term was coined in 1972 by a Romanian chemist who sought drugs that would enhance learning and memory.

Nootropics have developed something of a fan base in Silicon Valley, where acute mental function is revered and rewarded as much as physical strength and stamina are in the NFL. Hence the Silicon Valley executive who takes “a mixture of exotic dietary supplements and research chemicals that he says gives him an edge in his job without ill effects: better memory, more clarity and focus and enhanced problem-solving abilities. ‘I can keep a lot of things on my mind at once.'”

The problem: “long-term safety studies in healthy people have never been done. Most efficacy studies have only been short-term.” What you tend to get is a lot of anecdotal evidence from committed enthusiasts, but it is hard to tell how much of this is just a placebo affect among people who would be motivated high achievers in any case.

In effect, nootropics are supposed to be steroids for the brain, and that comparison ought to prompt some cautious reflection, because the effect of steroids is well known—including a list of deleterious side effects, particularly from long-term use. This already includes impacts on mental function and mood. On a more everyday level, we can observe the effect of well-known drugs that boost mental stamina or alertness, from caffeine to amphetamines. A period of heightened alertness and concentration tends to be followed by a crash in which the same characteristics that were briefly enhanced are now depressed. What the drug giveth, the drug taketh away. And the body can develop resistance to a drug’s effects. Methamphetamine addicts who start taking the drug so they can party all night end up taking it just to be able to get out of bed in the morning.

A normal, healthy body and brain are delicately balanced self-regulating systems, and we have to be very cautious about interfering with that balance. Benefits gained at one place for one moment tend to be canceled out elsewhere.

Let’s sum up:

The Promise: Super-smarts, like that pill in the movie Limitless (which is, in fact, based on a real drug).

The Questions: What’s the catch? What are the side effects? And how big is the benefit, really? Is this just “brain training” all over again—a fad that thrives on anecdotal evidence but doesn’t have much actual data to show its effectiveness?

One writer’s experiment with Nuvigil, the real-life inspiration for Limitless, gives us an idea. He reported noticeably increased mental function—combined with extreme physical lethargy and difficulty sleeping, so that he found he didn’t miss the drug when he stopped taking it.

All the augmentations we’ve discussed so far seek to enhance our natural endowments by adding on to them. But what if we can change our natural endowments themselves, at their source, on the genetic level?

That leads us to the last major area of human enhancement.

5. Gene Editing

Back in the 1980s, we first starting hearing a lot about the promise of genetic engineering and gene therapy, the idea of being able to edit human genetic code and propagate the new code throughout the body. Reports at the time indicated that it might take another ten to fifteen years before the technology was practical. It turned out to be more like 30 years—but it’s finally here, thanks to CRISPR.

A lot of other things had to happen, too. The speed and cost of sequencing the human genome need to collapse, which it has. And we need to have an enormous amount of data about which genes code which characteristics—something we’re still working on. The final piece is the ability to edit DNA at will and propagate the change through multiple cells. And that’s what CRISPR has just given us. This has led to speculation that in the future, “writing code” won’t just mean software for computers. It will mean coding DNA.

As usual, this technology is being used first for curing diseases, including personalized medicine for cancer treatment and repair of congenital defects.

But the wider possibility for augmentation is obvious. Humanity is the product of a multi-billion-year experiment in testing out genetic variations. We can survey our species and find people with genes that make them taller, smarter, faster, stronger, and so on—and not just by a little bit. There are people in the world who are genetic outliers, born with a capacity for truly extraordinary performance. If we can identify those extraordinary genetic endowments and figure out how to patch them in to our existing genetic code, giving us these enhanced qualities.

It is not clear whether it will be possible to do that by changing an adult’s existing DNA. The technology is likely to be applied first to human embryos, creating “designer babies” at the behest of ambitious parents who want their children to be ready to excel from the womb.

If we won’t do it, the Chinese probably will.

The limitation of this technology is that DNA is incredibly complex. There are 3 billion base pairs in the human genome, and just reading and comparing the genomes from a significant number of individuals involves staggering amounts of data storage. Because each genetic change can potentially interact with the others, the effects of gene editing may not be predictable or immediately obvious, particularly as we progress beyond fixing a single mutation that is known to cause a specific disease.

Moreover, there is no ethical way to experiment with all of these combinations and their effects, which could involve creating a whole cohort of human children who are supposed to be enhanced but end up with genetic problems that degrade their bodies and shorten their lives. This is not something we want to be doing by trial and error.

To sum up:

The Promise: Picking and choosing extraordinary abilities out the gene pool and putting them all together in ultra-capable new humans.

The Questions: There is the risk that in re-engineering our own DNA, we will introduce problems instead of improvements, and that we won’t know this ahead of time.

We know that all of these enhancements are eventually going to become possible, in some form and to some degree. A normal, healthy person might be inclined to leave well enough alone rather than signing up as the guinea pig for an untested enhancement, but there are two circumstances where the incentives become much greater and the inhibitions lower.

First, we already see various forms of augmentation being tested on those who are injured, diseased, or disabled, where the purpose is not to enhance their performance, but to bring them back to normal. It’s a matter of risk versus reward. If you have already lost a limb, or are suffering from a relentless degenerative disease, you have little to lose by trying a drug or an implant or gene therapy that promises to restore you to health. Yet if the technology succeeds at this goal, it will be natural for us to start asking how we can use it for enhancement above the normal.

Second, the main driver for the use of such enhancements will probably be its military application. It’s a similar risk-reward calculation. For the soldier, an extra degree of strength, stamina, or alertness can be a matter of life and death. Combine that with the resources available to the US military, which will be willing to pay for the new augmentations early on, while they are still relatively expensive.

In addition to these two factors, we can also expect the technology to be brought into the mainstream by a small number of enthusiastic early adopters, like those Chinese parents or nootropic-obsessed Silicon Valley entrepreneurs. There will be people who are so excited by the possibility of enhanced function that they are willing—perhaps foolishly—to bear the risk and added expense.

Those are the reasons to think the advent of this technology is inevitable. But is it desirable?

For all of the concern that augmentation will change human nature, part of our nature has always been a desire to improve ourselves and to increase our power over the world. Humans have already been significantly “enhanced” by such technologies as language, culture, and medicine. Kernel’s Bryan Johnson puts it this way:

A seemingly simple change 2.5 million years ago—using stone tools to butcher animals—led early hominids down the path to becoming modern humans.From that modest starting point, throughout human history, we created tools that increased our individual and collective intelligence and became extensions of our natural selves. We started with crude functional tools such as hammers and axes. Over just a few tens of thousands of years, we progressed to more intelligent tools, such as thermostats, and governance technologies based on rule-of-law rather than despotism.

Or as Elon Musk put it, we are already practically cyborgs in the way that we have integrated technology and electronic computers into our lives. Certainly, the way we live now would be unrecognizable to a caveman or even a medieval peasant.

Moreover, the next stage of human development is likely to come slowly and gradually, over a period of many decades. Boosters of the new technology may predict that they’re going to be downloading their minds into computers by the 2030s. If that ever does happen, it will almost certainly take much longer. This means we will have time to adjust, and in the meantime, we will enjoy so many other technological improvements and minor enhancements that what seems dangerous and unnatural today may not seem so radical by the time it actually becomes available.

If we have time to adjust, then we’d better use it, to begin recognizing the new technology as it arises and prepare ourselves for the important decisions about whether and how to use it.

The Transcendence of the Social: Durkheim, Weismann, and the Purification of Sociology

Meloni, M. (2016) The Transcendence of the Social: Durkheim, Weismann, and the Purification of Sociology. Frontiers in Sociology, 1. 11. ISSN 2297-7775

Abstract

Metadata

Authors/Creators:
  • Meloni, M.
Copyright, Publisher and Additional Information: © 2016 Meloni. This is an open-access article distributed under the terms of the Creative Commons Attribution License (CC BY)(https://creativecommons.org/licenses/by/4.0/). The use, distribution or reproduction in other forums is permitted, provided the original author(s) or licensor are credited and that the original publication in this journal is cited, in accordance with accepted academic practice. No use, distribution or reproduction is permitted which does not comply with these terms.
Institution: The University of Sheffield
Academic Units: The University of Sheffield > Faculty of Social Sciences (Sheffield) > Department of Sociological Studies (Sheffield)
Depositing User: Symplectic Sheffield
Date Deposited: 25 Jul 2016 08:12
Last Modified: 25 Jul 2016 08:12
Published Version: http://dx.doi.org/10.3389/fsoc.2016.00011
Status: Published
Publisher: Frontiers
Refereed: Yes
Identification Number:

The Dualism of Human Nature and its Social Conditions

Émile Durkheim

Abstract

Although sociology is defined as the science of society, in reality it cannot deal with human groups, which are the immediate concern of its research, without in the end tackling the individual, the ultimate element of which these groups are composed. For society cannot constitute itself unless it penetrates individual consciousnesses and fashions them ‘in its image and likeness’; so, without wanting to be over-dogmatic, it can be said with confidence that a number of our mental states, including some of the most essential, have a social origin. Here it is the whole that, to a large extent, constitutes the part; hence it is impossible to try to explain the whole without explaining the part, if only as an after-effect. The product par excellence of collective activity is the set of intellectual and moral goods called civilization; this is why Auguste Comte made sociology the science of civilization. But, in another aspect, it is civilization that has made man into what he is; it is this that distinguishes him from the animal. Man is man only because he is civilized. To look for the causes and conditions on which civilization depends is therefore to look, as well, for the causes and conditions of what, in man, is most specifically human. This is how sociology, while drawing on psychology, which it cannot do without, brings to this, in a just return, a contribution that equals and exceeds in importance the services it receives from it. It is only through historical analysis that it is possible to understand what man is formed of; for it is only in the course of history that he has taken form.

http://www.berghahnjournals.com/view/journals/durkheimian-studies/11/1/ds110105.xml?rskey=zvdEBu&result=1

MIT irá premiar os desobedientes

O Media Lab criou um prêmio de 250.000 dólares para aqueles que romperem com as normas, pois “não se pode mudar o mundo sendo obediente”

O MIT Media Lab criou um prêmio no valor de 250.000 dólares para a “desobediência útil”. Sayamindu Dasgupta | EPV

As palavras “pesquisa”, “liderança”, “ruptura” e “inovação” são ouvidas costumeiramente nos corredores do Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), uma das mais importantes instituições científicas do mundo, cujos laboratórios produzem, em permanência, novas ideias e invenções. Agora, os dirigentes do MIT Media Lab, um centro de pesquisa interdisciplinar interno ao MIT, querem acrescentar mais uma palavra ao léxico da instituição: desobediência. Segundo Joi Ito, diretor do MIT Media Lab, é necessário incluir esse termo porque muitas vezes só é possível avançar quando se rompem algumas normas. “Não se pode mudar o mundo sendo obediente”, afirmou Ito em seu blog pessoal.

Para isso, Ito e Ethan Zuckerman, diretor do MIT Center for Civic Media – voltado para o uso social das novas tecnologias de comunicação–, criaram um prêmio chamado MIT Media Lab Disobedience Award, que dará 250.000 dólares (cerca de 780.000 reais) a uma pessoa ou grupo que praticar a “desobediência construtiva”, que, segundo explicam, é aquela que “se realiza de maneira ética e responsável e produz um impacto social positivo”. O prêmio, aberto a disciplinas tão díspares como a pesquisa científica, a inovação tecnológica, os direitos civis, a liberdade de expressão e os direitos humanos, será financiado por Reid Hoffman, fundador e diretor-executivo do LinkedIn.

A ideia de premiar a desobediência surgiu durante uma conferência realizada em junho de 2016 no MIT Media Lab cujo objetivo era debater os limites éticos, legais e sociais da pesquisa científica. Durante esse evento, que recebeu o nome de Forbidden Research (“pesquisa proibida”), os organizadores do prêmio se deram conta de que “há uma grande frustração por parte daqueles que procuram entender como usar a desobediência de uma maneira ética e responsável para desafiar as normas, regras e leis em benefício da sociedade”, segundo se lê no site do novo prêmio.

Tanto Zuckerman como Ito fizeram referência a Martin Luther King, Gandhi e Copérnico como exemplos de pessoas que tiveram que se opor às normas de seu tempo para o bem coletivo e que, se estivessem vivas, poderiam ser candidatas a receber o novo prêmio. Apesar disso, sinalizaram que, com a premiação, não desejam incentivar as pessoas a uma desobediência injustificada, mas indicaram que “há ocasiões nas quais devemos respeitar nossos princípios e avaliar se as leis e regras são justas ou devem ser questionadas”.

Ethan Zuckerman, diretor do MIT Center for Civic Media e um dos criadores do prêmio para a desobediência. ampliar foto
Ethan Zuckerman, diretor do MIT Center for Civic Media e um dos criadores do prêmio para a desobediência. Erik (HASH) Hersman.

Zuckerman explica, em uma entrevista ao EL PAÍS, que a verdadeira importância do prêmio não é tanto a recompensa econômica, mas sim a visibilidade e o reconhecimento que ele pode trazer a uma determinada causa, além do fato de que “o MIT Media Lab se comprometeu a assessorar e apoiar o ganhador para que ele possa tirar o máximo partido dessa oportunidade”. Segundo ele, essa visibilidade pode “ajudar os premiados a ficar mais protegidos” ao atrair a atenção da imprensa para problemas que hoje passam despercebidos. “Esperamos que isso sirva para que eles estabeleçam contatos com pessoas influentes e obtenham mais recursos a longo prazo”, disse Zuckerman, que também insiste que se evitará atrair a atenção indesejada para ativistas que poderiam ser prejudicados ou colocados em risco. “Quero acreditar que sabemos o que estamos fazendo”, afirmou.

Os organizadores da premiação também reiteraram que a iniciativa não é uma reação ao resultado da eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos, apesar do crescente clima de mobilização social vivido no país nos últimos meses.

O processo de nomeação de candidatos para receber o prêmio de desobediência está aberto ao público através de um site. Na página, explica-se que é possível indicar “qualquer pessoa viva ou grupo que esteja ou tenha estado envolvido em atos de desobediência responsável, honrada e ética à autoridade com o objetivo de beneficiar a sociedade”. Também lembram que não se trata de apoiar atos de violência, terrorismo ou comportamentos irresponsáveis, e que “o principal objetivo do prêmio é o impacto social positivo”. Os organizadores convidarão a primeira pessoa que indicar o ganhador à cerimônia de entrega do prêmio, que será realizada em 21 de julho no MIT, em Boston. As nomeações estão abertas até 1o de maio.

O ganhador será eleito por um júri multidisciplinar liderado por Ito e que incluirá especialistas em direitos civis, cientistas, acadêmicos e ativistas de direitos humanos.

Definindo a “desobediência útil”

Segundo Zuckerman, além do reconhecimento de um indivíduo ou grupo concreto, o prêmio tem como objetivo abrir um debate público sobre a importância e o significado da “desobediência útil”. Na opinião de Zuckerman, a desobediência pode se apresentar de muitas formas e em uma quantidade de disciplinas, e é um conceito difícil de definir. “Até que se tente encontrar uma definição, é difícil perceber o quão amplo e difuso é o conceito de desobediência”, explicou.

“Há ocasiões nas quais devemos respeitar nossos princípios e avaliar se as leis e regras são justas ou devem ser questionadas”

No caso das novas tecnologias, Zuckerman acredita que a desobediência é ainda mais difícil de definir, mas seus efeitos podem frear o ritmo da inovação, já que, em alguns casos, o simples fato de usar uma coisa para um objetivo diferente daquele para o qual ela foi projetada pode ser subversivo, em referência aos termos de licenças de usuário que não permitem transformar ou modificar produtos de consumo. “Nesses casos, o uso de um modo distinto (daquele para o qual foram idealizados) pode configurar um ato de protesto”, disse.

No caso da ciência, os limites enfrentados por pesquisadores são, às vezes, mais sutis, pois incluem limitações sociais e éticas. Segundo Zuckerman, exemplos de cientistas que tiveram que nadar contra a corrente para avançar em seus trabalhos pelo bem comum são Rachel Carson, autora do livro Primavera Silenciosa (Gaia Editora), no qual alerta sobre os perigos dos pesticidas sintéticos apesar da oposição das indústrias químicas que os produziam, ou o bioquímico do MIT Kevin Esvelt, que desafiou convenções morais ao modificar geneticamente mosquitos e ratazanas para evitar a transmissão de doenças.

Zuckerman, um ativista digital que participou de várias causas relativas à liberdade de expressão e a facilitar a comunicação intercultural, se atreveu a predizer que o ganhador do prêmio será “aquela pessoa que melhor nos ajudar a entender quando faz sentido ser desobediente”.

http://brasil.elpais.com/brasil/2017/04/10/ciencia/1491837459_077361.html

How upgrading humans will become the next billion-dollar industry

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Detail of “Homo Deus” hardcover dust jacket.

 

Investors searching for the next transformative technology destined to turn a bunch of Ivy League dropouts into billionaires, and half the market into a loose slot machine, need only look in the mirror.

“The greatest industry of the 21st century will probably be to upgrade human beings,” historian Yuval Harari, author of the fascinating new book “Homo Deus,” told MarketWatch.

‘For the first time in history it will be possible to translate economic inequality into biological inequality.’

Yuval Harari

For all of humanity’s scientific, economic and artistic achievements, we have neglected this ultimate self-improvement project, Harari said. Our bodies and brains, after all, still run on the same hardware and software that evolved some 200,000 years ago.–

Alphabet’s GOOG, -0.52% GOOGL, -0.57% Google already has a unit devoted to overcoming death, Harari noted. And who can doubt that Apple AAPL, +0.03% will want to pick from this new tree of knowledge, as well, or that after conquering self-driving cars Uber, in spite of the antics of its CEO, will want to build an Übermensch?

Don’t miss: Top concerns for the future of aging Americans

As new technologies yield humans with much longer battery lives, killer apps and godlike superpowers, within the next six decades, if Harari is right, even the finest human specimens of 2017 will in hindsight seem like flip phones.

There is, of course, a catch. Many of us will remain flip phones, as the technology to upgrade humans to iPhones is likely to be costly, and regulated differently around the world. These advances will likely “lead to greater income inequality than ever before,” Harari said. “For the first time in history it will be possible to translate economic inequality into biological inequality.”

Such a divide could give rise to a new version of “old racist ideologies that some races are naturally superior to others,” Harari said. “Except this time the biological differences will be real, something that is engineered and manufactured.”

At the same time, these superhumans will have less and less to do, Harari, said, because robots and artificial intelligence will perform more and more of the jobs with which obsolete humans used to be tasked.

So what will these future humans do all day? Will we sail aboard an intergalactic cruise ship sitting on our butts while sucking down junk food like the future humans in Pixar’s DIS, -0.34% feel-good dystopian movie “Wall-E”?

Almost, Harari said.

“The only serious answer I can give is they will play computer games,” Harari said. “Immersive, 3D virtual-reality games that will be far more fun and more exciting than anything in real life.”

If that sounds straight out of an episode of “Black Mirror,” Harari noted that we have been playing variants on such games for thousands of years. “This is actually not completely new — religion is in a sense a virtual-reality game. There are a set of quite arbitrary laws, you have to gain points, and if you gain enough points in this life you get to go on to the next level.”

Given that choice, it may be preferable to remain a flip phone in a dad bod case.

http://www.marketwatch.com/story/how-upgrading-humans-will-become-the-next-billion-dollar-industry-2017-04-03

Quem decide como devemos morrer?

Apenas seis países permitem algum tipo de eutanásia; o último deles, Canadá, acaba de aprovar uma lei

 

Eutanasia
Tony García (getty)

A morte continua sendo um tabu. Por isso não falamos dela. Mas quando perguntamos às pessoas se têm medo da morte, elas costumam responder que, na verdade, têm medo do sofrimento. Da dor física, claro, mas também da dor psicológica de ter que continuar vivendo em condições insuportáveis. “Sinto-me preso numa jaula”, dizia Fabiano Antoniani, um tetraplégico italiano que vivia prostrado desde que sofreu um grave acidente, em 2014, que o deixou sem visão nem mobilidade. Sabia que ainda podia viver bastante tempo, porque o organismo de um homem forte de 40 anos pode aguentar muito, mas não queria seguir assim. No final de fevereiro, Antoniani foi à Suíça – o único país, entre os seis nos quais a eutanásia (a ajuda ao suicídio) está legalizada, que admite estrangeiros. Ele mesmo, com um movimento dos lábios, acionou o mecanismo que introduziu o coquetel da morte doce em sua boca.

O caso de Antoniani se parece muito com o de Ramón Sampedro, o tetraplégico espanhol que, nos anos noventa, recorreu em vão aos tribunais para que o ajudassem a morrer. O caso ficou conhecido no mundo todo pelo filme que inspirou, Mar Adentro, protagonizado por Javier Bardem e vencedor de um Oscar. Sampedro pôde morrer finalmente em 1998 porque uma mão amiga entregou os remédios que lhe permitiram partir, embora de forma clandestina e não tão doce quanto ele teria desejado. Quase 20 anos depois, a Espanha encara de novo o debate da eutanásia. Sete Parlamentos regionais pediram que seja regulada. A Espanha se pode transformar no sétimo país – além de cinco estados dos EUA – a permitir algum tipo de eutanásia. O último deles foi o Canadá, que aprovou a lei no mês passado.

Morrer bem é certamente o desejo mais universal. Mas o conceito de boa morte não é igual para todos. Os avanços no controle do câncer e de outras doenças, que eram mortais até pouco tempo atrás, aumentaram os casos de patologias crônicas de longa evolução sem esperança de cura. Cada vez são diagnosticados mais casos de demência ou doenças degenerativas que provocam a perda progressiva das faculdades físicas e, às vezes, mentais. Dispomos de um amplo arsenal de terapias que não curam, mas que permitem prolongar a sobrevivência. O problema é que isso muitas vezes ocorre à custa de um grande sofrimento ou da perda irreparável da qualidade de vida.

A perspectiva de uma longa e penosa deterioração faz com que muitos cidadãos queiram decidir, por si sós, quando e como morrer. Nas palavras de Sampedro, existe o direito à vida, mas não a obrigação de viver a qualquer preço. Este é o princípio no qual se baseiam os que propõem a despenalização da eutanásia. Ter acesso a uma morte medicamente assistida significaria uma extensão dos direitos civis.

Não acontece um aumento da porcentagem de pedidos de eutanásia por parte de pessoas que poderiam ser consideradas em situação de vulnerabilidade

Na legislação comparada, há duas possibilidades: a eutanásia direta, que consiste em provocar a morte do paciente, normalmente por meio de injeção de fármacos que lhe garantem uma morte doce; e a ajuda ao suicídio, que facilita os meios para que o próprio paciente coloque fim à vida. Neste caso, a ação costuma ser também através de um coquetel de medicamentos de ação rápida e indolor.

É preciso esclarecer que nem a limitação do esforço nem a sedação terminal são formas de eutanásia. Ambos são procedimentos habituais na atenção médica do final da vida e cumprem plenamente os parâmetros de uma boa prática clínica. De modo algum podem ser considerados eutanásia, ainda que a sua aplicação possa encurtar a vida, normalmente em horas ou, no máximo, dias. A finalidade, neste caso, não é causar a morte, e sim evitar a dor. Portanto, não é pertinente utilizar o termo eutanásia passiva para se referir a esses processos. A eutanásia é sempre ativa, seja porque provoca diretamente a morte ou porque facilita os meios. E sempre deverá ser voluntária. Requer um pedido consciente, informado, livre e reiterado por parte do paciente.

Nos países onde a prática não está regulada, são realizados suicídios e eutanásias acobertados, com risco para os profissionais que, de maneira altruísta, alegam que, dada a necessidade existente, é melhor regulá-la. A ausência de regulação faz com que algumas pessoas com doenças degenerativas de longa evolução se suicidem quando ainda poderiam viver um tempo em boas condições. Preferem colocar fim à sua vida quando ainda podem fazer isso por si próprias, temendo perder o controle com a progressão da doença. Têm medo de ficar presas, sem escapatória possível, num corpo deteriorado que lhes faça sofrer.

Na Europa, as pessoas que querem evitar essa deterioração possuem duas opções: ir para a Suíça ou procurar um amigo médico que o ajude. Também podem recorrer à Internet, onde não é difícil conseguir os remédios necessários. Em muitos casos, o fato de ter a certeza de que poderão morrer quando quiserem já significa um alívio que permite chegarem ao final natural da vida.

Romper o tabu da morte exige poder falar com naturalidade dela. A regulamentação da eutanásia precisa de uma deliberação informada, distante dos apriorismos e dos sectarismos ideológicos. Sempre haverá opositores porque consideram que as pessoas não podem dispor de sua vida pois ela só a Deus pertence. Os partidários da regulamentação lembram que, como no caso do aborto ou do casamento homossexual, o fato de que seja regulado não obriga ninguém a optar pela eutanásia.

Além das razões por motivos religiosos, existem objeções relacionadas com as possíveis consequências. Por exemplo, o temor de que a aplicação de uma lei da eutanásia tropece em uma ladeira escorregadia na qual as vítimas terminem sendo as pessoas mais vulneráveis. Que possam existir doentes que solicitem morrer não por causa de sua patologia, mas porque acham que incomodam ou pelas condições sociais adversas em que vivem. É um temor muito razoável, mas ao contrário dos anos 90, agora temos exemplos de regulamentação suficientemente amplos e prolongados, para poder comprovar se esses perigos se confirmaram ou não. Agora podemos ser mais objetivos na discussão.

Eutanasia Ramón Sampedro
O galego Ramón Sampedro DAVID LEVENE EYEVINE

Paliativos melhores não podem garantir que um paciente não sofra e queira morrer

Hoje em dia, a eutanásia ou suicídio assistido estão regulamentados na Bélgica (2002), Holanda (2002), Luxemburgo (2008), Colômbia (2015, por uma resolução do Tribunal Constitucional) e nos Estados norte-americanos do Oregon (1997), Washington (2008), Montana (2008), Vermont (2013) e Califórnia (2015). No caso da Suíça, a eutanásia não foi regulamentada, mas o Código Penal não contempla castigo para quem ajudar o outro a morrer, desde que seja por razões altruístas. O Canadá foi o último país a regulamentar a eutanásia. No começo de março foi aprovada uma lei, obrigada por uma sentença do Supremo Tribunal que, em 2015, declarou inconstitucional penalizar a morte medicamente assistida.

Os requisitos para solicitá-la são parecidos em todas as legislações: sofrer uma doença terminal ou processo irreversível que cause um padecimento insuportável sem perspectivas de melhora. Que o doente expresse livre e reiteradamente sua vontade de morrer e que seu caso seja revisado por dois ou mais médicos. Em todas existem comitês de acompanhamento que analisam os casos a posteriori e emitem relatórios anuais.

A eutanásia precisa de uma deliberação informada, distante dos apriorismos e dos sectarismos ideológicos

Nos 15 anos transcorridos desde que a Bélgica regulamentou a eutanásia, 15.000 pessoas recorreram a esse procedimento. Embora o número de pedidos tenha aumentado ano após ano, eles continuam sendo baixos. Com uma população de 11,2 milhões de habitantes, em 2016 a eutanásia foi realizada em 2.025 doentes, apenas 3 a mais que em 2015. Em 2014 foi aprovada naquele país a eutanásia infantil com 70% de apoio dos belgas. Em 2015 só houve um caso: um garoto de 17 anos em fase terminal. O câncer é a causa mais habitual e a maioria dos doentes prefere morrer em casa. Curiosamente, há diferenças substanciais entre as duas nacionalidades do país. Enquanto Flandres registra uma taxa de eutanásia de 2,46% de todas mortes ocorridas (dados de 2014), na Valônia a taxa é de 0,94%. As diferenças culturais poderiam explicar essa assimetria.

A Holanda introduziu as primeiras mudanças legislativas em 1993. Depois de um problemático período de tolerância, decidiu regulamentar a eutanásia através de uma lei que entrou em vigor em 2002. Com quase 17 milhões de habitantes, em 2015 ela foi aplicada a 5.516 pacientes, o dobro de 2008. Aproximadamente a metade dos pedidos são rechaçados por não cumprirem os requisitos. De todos os casos autorizados, 109 sofriam de algum tipo de demência e 56, de alguma doença psiquiátrica. Os casos psiquiátricos costumam ser os mais problemáticos. Das 5.516 eutanásias praticadas, 4 foram consideradas irregulares pela Comissão de Controle e Vigilância da Eutanásia e foi aberta uma investigação.

Tanto a Holanda quanto a Bélgica permitem a eutanásia em menores. No primeiro país, a idade mínima para poder fazer o pedido é de 12 anos. A Bélgica não estabelece a idade mínima, mas exige comprovar um “sofrimento físico insuportável” e que “a morte a curto prazo seja algo inevitável”. A Holanda debate agora uma nova causa: o cansaço de viver.

Os temores sobre uma possível ladeira escorregadia não se confirmaram. As comissões encarregadas de revisar os casos garantem transparência e controle. Em 2007 foi publicada na revista Journal of Medical Ethics uma revisão dos estudos disponíveis, que analisam vários anos de aplicação da legislação na Holanda e no Oregon. Seus resultados mostram que não aconteceu um aumento da porcentagem de pedidos de eutanásia por parte de pessoas que poderiam ser consideradas em situação de vulnerabilidade.

Há quem afirme que se fosse possível garantir a todos os doentes bons cuidados paliativos, a eutanásia não seria necessária. Mas cuidados melhores não podem garantir que um paciente não sofra e queira morrer. A medicina paliativa não cobre nem todos os casos nem todos os tipos de sofrimento. Eutanásia e cuidados paliativos não são opções excludentes. Ao contrário. Aqueles que defendem a eutanásia reclamam ao mesmo tempo a garantia do acesso universal aos cuidados paliativos. Na verdade, entre os requisitos para autorizar a morte assistida deveria estar que o paciente tenha se beneficiado deles. O objetivo é evitar que uma pessoa queria morrer porque não foi bem cuidada.

No Brasil, a eutanásia é um crime mas ninguém sabe qual

Marina Rossi

No Brasil, o tema ainda é um tabu e sua discussão segue esquecida em forma de projetos de leis que não saem da gaveta. No Senado, por exemplo, um Projeto de Lei de 1996 que “autoriza a prática da morte sem dor em casos específicos” nunca foi à votação. Por outro lado, o novo Código Penal brasileiro define, pela primeira vez, a eutanásia como crime, mas o texto também está arquivado no Senado. Enquanto isso, a eutanásia é enquadrada nos crimes de homicídio, o que dificulta a compreensão sobre a pena que deve ser aplicada a esse delito.

 

http://brasil.elpais.com/brasil/2017/03/31/ciencia/1490960180_147265.html

O mundo está mudando para melhor ou para pior?

Big data, internet das coisas, blockchain. O mundo do trabalho está mudando. E nós também.

O mundo está mudando para melhor ou para pior?

Falam dois especialistas que há muito tempo estudam o novo paradigma enfrentado pela sociedade. O primeiro: “Seria presunçoso tentar descrever com precisão a próxima era no mundo digital. Mas é razoável concluir que a internet que conhecemos há quase três décadas está em mutação, e que a próxima vai mudar o mundo mais do que sua irmã mais velha”. Estas são as palavras com as quais o acadêmico canadense Vincent Mosco, autor de obras de referência como To the Cloud, vai começar seu próximo livro.

Mais contundente é o consultor em transformação digital e inovação, o hispano-alemão Alex Preukschat. “A tecnologia blockchain, em combinação com outras tecnologias, como a internet das coisas, a inteligência artificial, o big data, os drones ou a biotecnologia, vai refazer o mundo tal como o conhecemos, muito mais rápido do que tem sido nos últimos anos, como parte da quarta revolução industrial.”

Em conclusão: Não apenas estamos em meio a uma reestruturação brutal, como também é a mais rápida da história. A questão que se coloca nesta situação é: esta mudança vai ser para melhor ou para pior?

Como acontecia no romance de Umberto Eco, estamos diante de apocalípticos e integrados, especialistas que preveem um universo distópico, mescla de 1984 e Matrix, governado pelo desemprego em massa, que parecem ser maioria. E outros que preveem uma sociedade mais transparente e descentralizada, na qual a informação flui e onde os robôs farão o trabalho tedioso em nosso lugar.

O historiador israelense Yuval Noah Harari, nascido em 1976, faz parte do primeiro grupo. Não acredita que acabaremos como em Matrix, mas argumenta em livros como Homo Deus: Uma Breve História do Amanhã que,enquanto a profusão de tecnologia tem conseguido que a humanidade melhore em coisas como a fome e as doenças, as ideias fundamentais das democracias liberais correm perigo de se tornar obsoletas em um mundo de ciborgues e inteligência artificial. Nada de descentralização em sua opinião: as grandes corporações conhecerão os indivíduos nos mínimos detalhes, e algumas pessoas monopolizarão o poder econômico e político, os algoritmos e a tecnologia, para criar classes biológicas.

A eliminação de postos de trabalho é outro mantra dos apocalípticos. Carl Benedikt Frey, pesquisador da Universidade de Oxford, realizou há pouco mais de um ano um estudo que viralizou rapidamente, no qual argumentava que 47% dos postos de trabalho correm risco de desaparecer. Na mesma linha anunciada por nada menos do que o Fórum Econômico Mundial. No ano passado, um relatório apresentado em Davos afirmava que a digitalização da indústria resultará no desaparecimento de 7,1 milhões de empregos e na criação de outros 2,1 milhões em 2020. Um pouco de matemática: serão cinco milhões de empregos líquidos a menos.

O ferrenho integrado Manish Sharma, diretor de operações da Accenture Operations, tem uma visão diferente. Em sua opinião, “as pessoas fazem trabalhos chatos porque esses são os empregos que lhe são oferecidos”, afirma. “A automação dos processos proporcionará uma vida melhor para as pessoas”.

O economista José Moisés Martín Carretero, autor de España 2030: Gobernar el Futuro, compartilha a visão de Sharma: “O progresso tecnológico tem deslocado trabalhadores, mas criado muito mais empregos”, afirma. “No curto prazo, pode haver reduções, mas, no longo prazo, a criação de empregos é inquestionável”.

O dinamarquês Erik Brynjolfsson e o norte-americano Andrew McAffee, cofundadores do departamento de Economia Digital do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), lançaram em 2011 o livro Race Against the Machine (Corrida Contra a Máquina, MIT, 2011). A obra explica como atividades que, até recentemente, eram reservadas para os seres humanos já são território para as máquinas. E a mudança é vista como algo positivo. “A economia mundial está na cúspide de um período de crescimento espetacular, impulsionada por máquinas inteligentes que aproveitarão ao máximo os avanços no processamento por computadores, pela inteligência artificial, pela comunicação em rede e pela digitalização de quase tudo.”

Isso, claro, sempre que estejamos de acordo de que ter um trabalho é sinônimo de ser feliz.

http://brasil.elpais.com/brasil/2017/04/03/economia/1491234100_328535.html

O futuro da humanidade em suas mãos

Equipe de especialistas investiga, na Universidade de Oxford, os riscos de extinção humana

 

Nick Bostrom, no Instituto do Futuro da Humanidade.

Precisamos de sabedoria para enfrentar o futuro. Para saber se os avanços tecnológicos caminham na direção certa ou não; se favorecem os seres humanos ou o oposto. Para se ter uma ideia do que fazer caso se apresentem cenários que ameaçam a sobrevivência da espécie, tais como os resultantes da ameaça nuclear, modificação de micróbios letais ou a criação de mentes digitais mais inteligentes do que o homem. Questões como essas são estudadas por um punhado de cérebros localizados na Universidade de Oxford, no chamado Instituto para o Futuro da Humanidade.

Liderando um grupo heterodoxo de filósofos, tecnólogos, físicos, economistas e matemáticos está um filósofo formado em física, neurociência computacional e matemática; um sujeito que, desde sua adolescência, buscava interlocutores para compartilhar suas inquietudes a respeito do filósofo alemão Arthur Schopenhauer; um sueco de 42 anos que passeia pelas instalações do instituto com uma bebida à base de vegetais, proteínas e gorduras que chama de elixir; e que escuta audiolivros com o dobro da velocidade para não perder um segundo do seu precioso tempo. Estamos falando de Nick Bostrom, autor de Superinteligência: Caminhos, Perigos, Estratégias (ainda não publicado no Brasil), um livro que causou impacto, uma reflexão sobre como lidar com um futuro no qual a Inteligência Artificial pode superar a humana, um ensaio que foi endossado explicitamente por cérebros do Vale do Silício como Bill Gates e Elon Musk; filósofos como Derek Parfit e Peter Singer; e físicos como Max Tegmark, professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Um trabalho que, além disso, entrou para a lista de best-sellers elaborada pelo The New York Times Book Review. A ONU o convida para dar palestras, assim como institutos de pesquisa como a The Royal Society; uma de suas palestras para a organização TED já conta com mais de 1,7 milhão de visualizações. E Stephen Hawking já alertou o mundo: é preciso ter cuidado com a Inteligência Artificial.

O Instituto para o Futuro da Humanidade — FHI, na sigla em inglês — é um espaço com salas de reuniões batizadas com nomes de heróis anônimos que, com um gesto, salvaram o mundo — como Stanislav Petrov, o tenente-coronel russo que evitou um acidente nuclear durante a Guerra Fria —; onde fluem ideias, trocas de pontos de vista, onde florescem hipóteses e análises. Principalmente, às tardes e noites: o chefe é, como ele mesmo confessa, um corujão; fica no escritório até as 2h da madrugada.

“No momento em que saibamos como fazer máquinas inteligentes, vamos fazê-las”, disse Bostrom, em uma sala do instituto que dirige, “e, até lá, devemos saber como controlá-las. Se você tem um agente artificial com objetivos diferentes dos seus, quando se torna suficientemente inteligente é capaz de antecipar suas ações e fazer planos com base nos seus, o que poderia incluir esconder suas próprias habilidades de forma estratégica”. Especialistas em Inteligência Artificial citados em seu livro dizem que há uma probabilidade de 90% de que, entre 2075 e 2090, existam máquinas inteligentes como os humanos. Na transição para essa nova era, será preciso tomar decisões. Talvez inocular valores morais às máquinas. Evitar que se voltem contra nós.

É para a análise desse tipo de suposições e cenários que este especialista lê intensivamente sobre machine learning (aprendizagem automática, um segmento da inteligência artificial que explora técnicas para que os computadores possam aprender por si mesmos) e sobre economia da inovação. Para Bostrom, o tempo nunca é suficiente. Ler, ler, ler, consolidar os conhecimentos, aprofundar, escrever. “O tempo é precioso. É um recurso valioso que constantemente desliza por entre os dedos.”

As pessoas parecem que se esquecem da guerra nuclear. Uma mudança para pior na geopolítica poderia se tornar um perigo

Estudar, formular hipóteses, desenvolvê-las, antecipar cenários. É o que se faz neste instituto onde se promove o brainstorming (uma tempestade de ideias) e a videoconferência, um labirinto de salas dominadas por lousas vileda com diagramas e em cuja entrada está pendurado um cartaz que reproduz a capa de Admirável Mundo Novo, a visionária distopia do livro de Aldous Huxley, publicado em 1932. Um total de 16 profissionais trabalha aqui.

Publicam revistas acadêmicas, produzem relatórios de risco para empresas de tecnologia, para Governos (por exemplo, para o finlandês) ou para a ONU, que está se preparando para construir seu primeiro programa de Inteligência Artificial — um dos representantes do programa visitava os escritórios do FHI na semana passada. Niel Bowerman, diretor-adjunto, físico do clima e ex-assessor da equipe política de Energia e Meio Ambiente de Barack Obama, diz que no instituto sempre estudam quão grande é um problema, quantas pessoas trabalham nele e quão fácil é avançar nessa área para determinar os campos de estudo.

Bostrom é quem comanda o instituto, quem decide onde ir, o visionário. Desenvolve seu trabalho graças ao incentivo filantrópico de James Martin, milionário interessado nas questões de riscos existenciais do futuro, que há 10 anos impulsionou o FHI para estudar e refletir sobre coisas que a indústria e Governos, guiados por seus próprios interesses, não têm por que pensar.

O filósofo sueco, que foi incluído em 2009 na lista dos 100 maiores pensadores globais da revista Foreign Policy, está interessado em estudar, em particular, sobre as ameaças distantes, as quais não gosta de colocar datas. “Quanto maior for o prazo”, diz, “maiores são as possibilidades de um cenário de extinção ou de era pós-humana”. Mas existem perigos no curto prazo. Os que mais preocupam Bostrom são aqueles que podem afetar negativamente as pessoas como pragas, vírus da gripe aviária, as pandemias.

Há uma corrida entre nosso progresso tecnológico e nossa sabedoria, que vai muito mais devagar

Em relação à Inteligência Artificial e sua relação com a militar, diz que os riscos mais evidentes são representados por drones e pelas armas letais autônomas. E lembra que a guerra nuclear, embora com poucas probabilidades de acontecer, ainda é um perigo latente. “As pessoas parecem que não se preocupam mais com ela; uma mudança para pior na situação geopolítica poderia se tornar um grande perigo.”

A biotecnologia e, em particular, a possibilidade oferecida pelo sistema de edição genética CRISPR de criar armas biológicas também colocam novos desafios. “A biotecnologia está avançando rapidamente; permitirá manipular a vida, modificar micróbios com grande precisão e potência. Isso abre caminho para habilidades muito destrutivas.” A tecnologia nuclear, destaca, pode ser controlada. A biotecnologia, a nanotecnologia, o que alguém faz em uma garagem com um equipamento de segunda mão, comprado no eBay, nem tanto. Com pouco, é possível fazer muito mal.

Depois de superar sua fase trans-humanista — fundou, em 1998, com David Pearce, a Associação Mundial Trans-humanista, grupo que defende com entusiasmo a expansão das habilidades humanas através do uso de tecnologias—, Bostrom encontrou na Inteligência Artificial o campo perfeito para desenvolver seu trabalho. A corrida nessa área deslanchou; grandes empresas — o Google comprou a empresa de tecnologia DeepMind, em 2014 — e Estados brigam para se apossar de um setor que poderia proporcionar poderes imensos, quase inimagináveis.

Um dos cenários projetados em seu livro é a tomada de poder por uma Inteligência Artificial. Ocorreria uma explosão de inteligência. As máquinas chegariam a um ponto em que superam seus programadores, os humanos. São capazes de melhorar a si mesmas. De desenvolver grandes habilidades de programação, estratégicas, de manipulação social, de hacking. Podem querer controlar o planeta. Os seres humanos podem ser um obstáculo para seus objetivos. Para assumir o controle, escondem suas cartas. Podem se mostrar inicialmente dóceis. No momento em que desenvolvem todos seus poderes, podem lançar um ataque contra a espécie humana. Hackear drones, armas. Lançar robôs do tamanho de um mosquito desenvolvidos em nanofábricas produtoras de gás mostarda. Isso é apenas a síntese do desenvolvimento de um cenário.

Mas, como dizia a crítica da revista The Economist sobre o livro Superinteligência, as implicações da introdução de uma segunda espécie inteligente na Terra merecem que alguém pense nelas. “Antes, muitas dessas questões, não apenas aquelas da AI [sigla em inglês de Artificial Intelligence], costumavam estar no campo da ficção científica, da especulação”, diz Bostrom, “para muitas pessoas era difícil entender ser possível fazer trabalho acadêmico com isso, que poderiam produzir avanços intelectuais”.

O livro também apresenta um cenário no qual a Inteligência Artificial se desenvolve em diferentes setores em paralelo e gera uma economia que produz patamares de riqueza inimagináveis, surpreendentes avanços tecnológicos. Os robôs, que não dormem nem pedem férias, produzem sem parar e substituem os seres humanos em vários trabalhos.

— Os robôs nos enriquecerão ou nos substituirão?

— Primeiramente, talvez nos enriqueçam. No longo prazo, vamos ver. O trabalho é caro e não é algo desejado, então é preciso pagar as pessoas para fazê-lo. Automatizá-lo parece benéfico. Isso cria dois desafios: se as pessoas perdem seus salários, como podem se manter? O que se torna uma questão política: planeja-se uma garantia de renda básica? Um Estado de bem-estar? Se esta tecnologia realmente torna o mundo um lugar muito mais rico, com um crescimento mais rápido, o problema deveria ser fácil de resolver, haveria mais dinheiro. O outro desafio é que muita gente vê seu trabalho como necessário para ter status social e para que sua vida tenha sentido. Hoje, estar desempregado não é ruim só porque você não tem dinheiro, mas também porque muitas pessoas se sentem inúteis. Seria preciso mudar a cultura de modo que não pensemos que trabalhar por dinheiro é algo que dá valor. É possível, há exemplos históricos: os aristocratas não trabalhavam para viver; até pensavam que fazer isso era degradante. Acreditamos que as estruturas de significado social são universais, mas são recentes. A vida das crianças parece fazer muito sentido, mesmo se não fazem nada útil. Sou otimista: a cultura pode mudar.

Alguns segmentos da comunidade científica acusaram Bostrom de ser muito radical. Especialmente em sua fase trans-humanista. “Seus pontos de vista sobre a edição genética ou sobre a melhora do ser humano são controversos”, diz Miquel-Ángel Serra, biólogo que acaba de publicar, em parceria com Albert Cortina, Humanidade: Desafios Éticos das Tecnologias Emergentes (em espanhol). “Somos muito céticos em relação às suas propostas.” Serra, no entanto, deixa claro que Bostrom está agora no centro do debate sobre o futuro da Inteligência Artificial, que é uma referência.

— Você projeta uma visão muito apocalíptica em seu livro do que poderia acontecer com a humanidade?

— Muitas pessoas podem ter a impressão de que sou mais pessimista em relação à ‘AI’ do que realmente sou. Quando o escrevi, parecia mais urgente tentar ver o que poderia dar errado para nos certificar de como evitar isso.

— Mas você é otimista em relação ao futuro?

— Tento não ser pessimista nem otimista. Tento ajustar minhas crenças ao que a evidência aponta; com nosso conhecimento atual, acredito que o resultado final pode ser muito bom ou muito ruim. Embora talvez pudéssemos deslocar a probabilidade para um bom final, se trabalharmos duro para isso.

— Ou seja, há coisas para fazer. Quais?

— Estamos fazendo todo o possível para criar este campo de pesquisa de controle do problema. Devemos manter e cultivar boas relações com a indústria e com os desenvolvedores de Inteligência Artificial. Além disso, há muitas coisas que não vão bem neste mundo: pessoas que estão morrendo de fome, que são picadas por um mosquito e contraem malária, que se enfraquecem devido ao envelhecimento, desigualdade, injustiça, pobreza, e muitas [coisas] podem ser evitadas. No geral, acredito que há uma corrida entre nossa habilidade de fazer as coisas, de avançar rapidamente nossas habilidades tecnológicas, e nossa sabedoria, que vai muito mais devagar. Precisamos de um certo nível de sabedoria e colaboração para o momento em que alcancemos determinados marcos tecnológicos, para sobreviver a essas transições.

http://brasil.elpais.com/brasil/2016/02/12/ciencia/1455304552_817289.html

Yuval Noah Harari: ‘Homo sapiens as we know them will disappear in a century or so’

The visionary historian, author of two dazzling bestsellers on the state of mankind, takes questions from Lucy Prebble, Arianna Huffington, Esther Rantzen and a selection of our readers

Yuval Noah Harari.
‘An intellectual joy’: Yuval Noah Harari. Photograph: Antonio Olmos for the Observer New Review

Last week, on his Radio 2 breakfast show, Chris Evans read out the first page of Sapiens, the book by the Israeli historian Yuval Noah Harari. Given that radio audiences at that time in the morning are not known for their appetite for intellectual engagement – the previous segment had dealt with Gary Barlow’s new tour – it was an unusual gesture. But as Evans said, “the first page is the most stunning first page of any book”.

If DJs are prone to mindless hyperbole, this was an honourable exception. The subtitle of Sapiens, in an echo of Stephen Hawking’s great work, is A Brief History of Humankind. In grippingly lucid prose, Harari sets out on that first page a condensed history of the universe, followed by a summary of the book’s thesis: how the cognitive revolution, the agricultural revolution and the scientific revolution have affected humans and their fellow organisms.

It is a dazzlingly bold introduction, which the remainder of the book lives up to on almost every page. Although Sapiens has been widely and loudly praised, some critics have suggested that it is too sweeping. Perhaps, but it is an intellectual joy to be swept along.

It’s one of those books that can’t help but make you feel smarter for having read it. Barack Obama and Bill Gates have undergone that experience, as have many others in the Davos crowd and Silicon Valley. The irony, perhaps, is that one of the book’s warnings is that we are in danger of becoming an elite-dominated global society.

At the centre of the book is the contention that what made Homo sapiens the most successful human being, supplanting rivals such as Neanderthals, was our ability to believe in shared fictions. Religions, nations and money, Harari argues, are all human fictions that have enabled collaboration and organisation on a massive scale.

Originally published in Hebrew in 2011, the book was translated into English three years later and became an international bestseller. It ranges across a multitude of disciplines with seemingly effortless scholarship, bringing together a keen understanding of history, anthropology, zoology, linguistics, philosophy, theology, economics, psychology, neuroscience and much else besides.

Yet the author of this accomplished and far-reaching book is a young Israeli historian whose career, up until that point, had been devoted to the relative academic backwater of medieval military history. Apparently, Sapiens is based on an introductory course to world history that Harari had to teach, after senior colleagues dodged the task. The story goes that the major Israeli publishers weren’t interested. No one saw international stardom beckoning.

Last year, Harari’s follow-up, Homo Deus: A Brief History of Tomorrow, was published in the UK, becoming another bestseller. It develops many of the themes explored in Sapiens, and in particular examines the possible impact of biotechnological and artificial intelligence innovation on Homo sapiens, heralding perhaps the beginning of a new bionic or semi-computerised form of human.

Again, it’s an exhilarating book that takes the reader deep into questions of identity, consciousness and intelligence, grappling with what kinds of choices and dilemmas a fully automated world will present us with.

Now 41, Harari grew up in a secular Jewish family in Haifa. He studied history at the Hebrew University of Jerusalem and completed his doctorate at Oxford. He is a vegan and he meditates for two hours a day, often going on extended retreats. He says it helps him focus on the issues that really matter. He lives with his husband on a moshav, an agricultural co-operative, outside Jerusalem. Being gay, he says, helped him to question received opinions. “Nothing should be taken for granted,” he has said, “even if everybody believes it.”

One of the pleasures of reading his books is that he continually calls on readers, both explicitly and implicitly, to think about what we know and what we think we know. And he has little time for fashionable stances.

He writes and speaks like a man who is not excessively troubled by doubt. If that makes him sound arrogant, let me clarify: he arrives at his conclusions after a great deal of research and contemplation. However, once he’s persuaded himself – and he says he always leaves it to the evidence to decide his thinking – he doesn’t hold back in his efforts to persuade the reader. It makes for what Jared Diamond called “unforgettably vivid language”.

Harari is a naturally gifted explainer, invariably ready with the telling anecdote or memorable analogy. As a result, it’s tempting to see him less as a historian than as some kind of all-purpose sage. We asked public figures and readers to pose questions for Harari, and many of these ( below) were of a moral or ethical nature, seeking answers about what should be done, rather than about what has happened. But the Israeli seems used to the role, and perfectly happy to give his best shot at replying. A historian of the distant past and the near future, he has carved out a whole new discipline of his own. It’s a singular achievement by an impressively multiple-minded man.

Helen Czerski
Photograph: Sonja Horsman for the Observer

We are living through a fantastically rapid globalisation. Will there be one global culture in the future or will we maintain some sort of deliberate artificial tribal groupings?
Helen Czerski, physicist
I’m not sure if it will be deliberate but I do think we’ll probably have just one system, and in this sense we’ll have just one civilisation. In a way this is already the case. All over the world the political system of the state is roughly identical. All over the world capitalism is the dominant economic system, and all over the world the scientific method or worldview is the basic worldview through which people understand nature, disease, biology, physics and so forth. There are no longer any fundamental civilisational differences.

Andrew Anthony: Are you saying that the much-maligned Francis Fukuyama was correct in his analysis of the end of history?
It depends how you understand the end of history. If you mean the end of ideological clashes, then no, but if you mean the creation of a single civilisation which encompasses the whole world, then I think he was largely correct.

Lucy Prebble
Photograph: Dan Wooller/Rex Shutterstock

What is the biggest misconception humanity has about itself?
Lucy Prebble, playwright
Maybe it is that by gaining more power over the world, over the environment, we will be able to make ourselves happier and more satisfied with life. Looking again from a perspective of thousands of years, we have gained enormous power over the world and it doesn’t seem to make people significantly more satisfied than in the stone age.

Is there a real possibility that environmental degradation will halt technological progress?
TheWatchingPlace, posted online
I think it will be just the opposite – that, as the ecological crisis intensifies, the pressure for technological development will increase, not decrease. I think that the ecological crisis in the 21st century will be analogous to the two world wars in the 20th century in serving to accelerate technological progress.

As long as things are OK, people would be very careful in developing or experimenting in genetic engineering on humans or giving artificial intelligence control of weapon systems. But if you have a serious crisis, caused for example by ecological degradation, then people will be tempted to try all kinds of high-risk, high-gain technologies in the hope of solving the problem, and you’ll have something like the Manhattan Project in the second world war.

Andrew Solomon
Photograph: Sarah Lee for the Guardian

What role does morality play in a future world of artificial intelligence, artificial life and immortality? Will an aspiration to do what is good and right still motivate much of the race?
Andrew Solomon, writer
I think morality is more important than ever before. As we gain more power, the question of what we do with it becomes more and more crucial, and we are very close to really having divine powers of creation and destruction. The future of the entire ecological system and the future of the whole of life is really now in our hands. And what to do with it is an ethical question and also a scientific question.

So to give just a simple example: what happens if several pedestrians jump in front of a self-driving car and it has to choose between killing, say, five pedestrians or swerving to the side and killing its owner? Now you have engineers producing the self-driving cars and they need to get an answer to this question. So I don’t see any reason to think that AI or bioengineering will make morality any less relevant than before.

Matt Haig
Photograph: Sarah Lee for the Guardian

After reading Homo Deus I began to wonder why we are so wilfully ushering in a future that will slowly make us redundant. We are the only animal obsessed with progress. Should we try to resist the idea of the future as one of inevitable technological advancement and create a different kind of futurism?
Matt Haig, author
You can’t just stop technological progress. Even if one country stops researching artificial intelligence, some other countries will continue to do it. The real question is what to do with the technology. You can use exactly the same technology for very different social and political purposes. If you look at the 20th century, we see that with the same technology of electricity and trains, you could create a communist dictatorship or a liberal democracy. And it’s the same with artificial intelligence and bioengineering. So I think people shouldn’t be focused on the question of how to stop technological progress because this is impossible. Instead the question should be what kind of usage to make of the new technology. And here we still have quite a lot of power to influence the direction it’s taking.

Will humans always find ways to hate each other, or do you lean more towards Steven Pinker’s view that society is much less violent than it used to be, and that this trend is set to continue?
Sarah Shubinsky, reader
I tend to agree with Steven Pinker. We now live in the most peaceful era in history. There is definitely still violence – I live in the Middle East so I know this perfectly well. But, comparatively, there is less violence than ever before in history. Today more people die from eating too much than from human violence, which is really an amazing achievement. We can’t be certain about the future but some changes make this trend seem robust. First of all, there is the threat of nuclear war which was perhaps the chief reason for the decline of war since 1945, and this threat is still there. And secondly, you have the change in the nature of the economy – that the economy switched from being a material-based economy to the knowledge-based economy.

In the past, the main economic assets were material – things like wheat fields and gold mines and slaves. So war made good sense because you could enrich yourself by waging war against your neighbours. Now the main economic asset is knowledge, and it’s very difficult to conquer knowledge through violence. Most of the large conflicts in the world today are still in those areas like the Middle East, where the main source of wealth is material – it’s oil and gas.

Esther Rantzen
Photograph: SilverHub/Rex/Shutterstock

You said that our predilection to create abstract concepts such as religion, nationality etc is the quality which singled out sapiens from other hominids. Given that is also the inspiration for wars that may bring about our destruction, is it a strength or a weakness?
Esther Rantzen, broadcaster
In terms of power, it’s obvious that this ability made Homo sapiens the most powerful animal in the world, and now gives us control of the entire planet. From an ethical perspective, whether it was good or bad, that’s a far more complicated question. The key issue is that because our power depends on collective fictions, we are not good in distinguishing between fiction and reality. Humans find it very difficult to know what is real and what is just a fictional story in their own minds, and this causes a lot of disasters, wars and problems.

The best test to know whether an entity is real or fictional is the test of suffering. A nation cannot suffer, it cannot feel pain, it cannot feel fear, it has no consciousness. Even if it loses a war, the soldier suffers, the civilians suffer, but the nation cannot suffer. Similarly, a corporation cannot suffer, the pound sterling, when it loses its value, it doesn’t suffer. All these things, they’re fictions. If people bear in mind this distinction, it could improve the way we treat one another and the other animals. It’s not such a good idea to cause suffering to real entities in the service of fictional stories.

AA: But these fictions often inspire us to do great things. Would an unblinking view of reality create the same motivation?
We certainly need some fictions in order to have large-scale societies. That’s true. But we need to use these fictions to serve us instead of being enslaved by them. A good analogy is maybe a football game. The laws of the game are fictional, they’re a creation of humans, there is nothing in nature that mandates the laws of the football game. As long as you remember that these are just laws that people invented to serve your aim, then you can play the game. If you completely give up these laws because they are fictional, then you can’t play football.

Professor Mark Post shows the world’s first lab-grown beefburger in London, August 2013.
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The future of human food? Professor Mark Post shows the world’s first lab-grown beefburger in London, August 2013. Photograph: Alamy

So I’m certainly not recommending that people stop using all these fictional entities. You cannot have a large-scale economy if you don’t use money. But you can use money in the same way you use the football laws, and still remember that this is just our creation. And similarly with the nation. There is nothing wrong in principle in having feelings of loyalty towards the group. But when you forget that this is a human creation, then you can end up sacrificing millions of people for the interests of the nation, forgetting that it’s the people who invented it.

Is being compassionate and empathetic a major flaw in human evolution? Is psychopathy the future for our species?
Dominic Currie, reader
No, I don’t think so. First of all, if it is, then it’s going to be quite a terrible future. But even if we leave aside the moral aspect and just look at it from a practical aspect, then human power comes from cooperation, and psychopaths are not very good at cooperation. You need empathy and compassion, you need the ability to understand and to sympathise with other people in order to cooperate with them effectively. So even if we leave aside all moral issues, still I don’t think that empathy is bad for us or that psychopaths are the future of humankind.

AA: You argue that humanism is a product of capitalism. Is it inseparable from capitalism?
There are close connections between them but I don’t think they are inseparable. They can certainly go along different ways in the 21st century. One of the big dangers we face is exactly the separation of capitalism from humanism, especially from liberal humanism. In the last decades the main reason why governments all over the world liberalised their politics and economics is not because they were convinced of the ethical arguments of humanism, but rather because they thought it will be good for the capitalist economy.

Now the fear is that in the 21st century capitalism and humanism will be separated, and you could have very sophisticated and advanced economies without any need to liberalise your political system or to give freedom to invest in the education and welfare of the masses.

Philippa Perry
Photograph: Fiona Shaw for the Guardian

Was the move from hunter-gathering to farming a mistake? If so, how can we make the best of it now?
Philippa Perry, writer and psychotherapist
It depends on your perspective. If you’re talking from the perspective of a pharaoh or some ancient Chinese emperor, then it was a very good idea. If you look at it from the perspective of a simple peasant woman in ancient Egypt, then it looks like a pretty bad idea. If you look at it from the perspective of the middle classes in the affluent societies of today, then again it looks like a very good idea. If you look at it from the perspective of somebody in Bangladesh who works 12 hours a day in a sweatshop, again it looks like a bad idea.

There is absolutely no way to turn back the clock, with 8 billion people returning to living as hunter-gatherers. So the question is really how to make the best of our current situation, and how not to repeat the mistakes of the agricultural revolution. With the new revolution in artificial intelligence and biotechnology, there is a danger that again all the power and benefits will be monopolised by a very small elite, and most people will end up worse off than before.

You said animal farming might be “the worst crime in history”. What advice do you have for helping society end it?
Jacy Reese, reader
Our best chance is with what is known as cellular agriculture or clean meat, which is the idea of creating meat from cells and not from animals. If you want a steak, you just grow a steak from cells – you don’t need to raise a cow and then slaughter the cow for the steak. This may sound like science fiction but it’s already a reality. Three years ago they created the first hamburger they made from cells. It’s true that it cost $300,000 but it’s always like that with a new technology. By now, 2017, the price, as far as I know, is down to $11 per hamburger. And the developers expect, that, given enough investment and the proper research, they could bring down the price to less than a slaughtered meat hamburger within, I don’t know, 10 years or so.

It’s still some way before you see it in the supermarket and in McDonald’s, but I think that’s the only viable solution. I’m vegan, and I try to avoid meat and other animal products, but I’m under no illusion that I can convince billions of other people to give up completely meat and milk and so forth. But if we can produce them from cells, then great. It will also have a lot of ecological benefits because it will reduce the enormous amount of pollution which is caused by high animal farming today.

Bettany Hughes
Bettany Hughes Photograph: Murdo MacLeod for the Guardian

Does the phrase “the modern mind” mean anything to you, and if so when was the modern mind born and what does it look like?
Bettany Hughes, historian
We know very little about the mind. We don’t understand what it is, what are its functions and how it emerged. When billions of neurons in the brain fire electrical charges in a particular pattern, how does this create the mental experience, the subjective experience of love or anger or pain or pleasure? We have absolutely no idea. And because we understand so little about the mind, we also don’t know how and why it emerged in the first place. We assume that the people in the late stone age who drew the cave art of Lascaux and Altamira had fundamentally the same minds as we have today. And we also assume that Neanderthals had a different kind of mind, even though they had bigger brains than ours. But the details at present are far beyond our understanding.

AA: You live in a part of the world that has been shaped by religious fictions. Which do you think will happen first – that Homo sapiens leave behind religious fiction or the Israel-Palestine conflict will be resolved?
As things look at present, it seems that Homo sapiens will disappear before the Israeli political conflict will be resolved. I think that Homo sapiens as we know them will probably disappear within a century or so, not destroyed by killer robots or things like that, but changed and upgraded with biotechnology and artificial intelligence into something else, into something different. The timescale for that kind of change is maybe a century. And it’s quite likely that the Palestinian-Israeli conflict will not be resolved by that time. But it will definitely be influenced by it.

Would we and all the other species on this planet have been better off without the cognitive revolution? Would we then still be living in harmony with all the other forms of life instead of dominating them and making ourselves unhappy in the process?
NassauOrange, posted online
I’m not sure about harmony because there is also a lot of violence and disharmony between other species. But we definitely would not have dominated the planet if we did not undergo the cognitive revolution. And then, also, you would not have the ecological crisis that the planet now faces. So yes, without a cognitive revolution, I guess most other organisms, most other big animals, would be much better off.

Were the Lascaux cave paintings in France created by minds like ours?
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Were the Lascaux cave paintings in France created by minds like ours? Photograph: D Nidos/© Département 24

What concerns you most about the world, and what are you doing about your concerns?
LeaActforChange, posted online
There are so many different concerns that I’m not sure which is the biggest one. At present, because of the enormous power of humankind, maybe the biggest concern of all is human blindness and stupidity. We’re an extremely wise species in so many ways but when it comes to making important decisions we have this tendency sometimes to make these terrible mistakes, and we are now in a situation when we just don’t have much room for error. As we gain more and more power, the consequences of making a stupid choice are catastrophic for us and for the entire ecological system. So this is a great cause for concern.

Is anti-intellectualism is rising in the west? If so, is there a relation between the rise of anti-intellectualism and the decline of liberalism?
guneydas, posted online
I’m not sure that it’s rising. It’s definitely there but it was always there, and I’m not sure if the situation now is worse than in the 1950s or 1930s or the 19th century or the middle ages. So yeah, it’s definitely a concern. And I would say it’s not so much anti-intellectualism as much as anti-science. Because even the most fundamentalist religious fanatics, they are intellectuals. They give far too much importance to the human intellect. One of the problems with a lot of religious fanaticism is that it gives far too much importance to the creations of the human intellect and far too little to empirical evidence from the world outside us.

AA: Are you confident that radical Islam is nothing more than the death rattle of the pre-modern era?
In the 21st century, humanity is facing some very difficult problems, whether it’s global warming or global inequality or the rise of disruptive technology, such as bioengineering and artificial intelligence. And wWe need answers to these challenges, and – at least as of March 2017 – I haven’t heard anything relevant being offered by radical Islam. So this is why I don’t think that radical Islam will shape the society of the 21st century. It could still be there, it could still cause a lot of trouble and violence and so forth, but I don’t see it creating or shaping the road ahead of humankind.

Arianna Huffington
Photograph: Mike McGregor/Observer Magazine

You’re clearly a big-picture guy, so what do you do to recharge and get the perspective that you need for your work?
Arianna Huffington, entrepreneur
I read a very large number of books from all fields, all disciplines. I usually start with a big question, such as whether people today are happier than in the past, or why men have dominated women in most human societies. And then I follow the question instead of trying to follow my own answer, even if it means I can’t formulate any clear theory.

AA: What does meditation do for you?
Above all it enables me to try and see reality as it is. When we try to observe the world, and when we try to observe ourselves, the mind constantly generates stories and fictions and explanations and imposes them on reality, and we cannot see what is really happening because we are blinded by the fictions and stories that we create or other people create and we believe. Meditation for me is just to see reality as it is – don’t get entangled in any story, in any fiction.

How would you advise the individual who wants to live a good life and contribute to the wellbeing of those not yet born as well as those already here?
Paul Baker, reader
Get to know yourself better, and especially what you really want from life, because otherwise technology tends to dictate to people their aims in life, and instead of technology serving us to realise our aims, we become enslaved to its agenda. And it’s very difficult to know what you really want from life. I’m not saying it’s an easy task.

AA: If we can indefinitely prevent death, would it still be possible to create meaning without what Saul Bellow called “the dark backing that a mirror needs if we are to see anything”?
I think so, yes. You have other problems with what happens when you overcome old age, but I don’t think lack of meaning will be a serious problem. Over the past three centuries, almost all the new ideologies of the modern world don’t care about death, or at least they don’t see death as a source of meaning. Previous cultures, especially traditional religions, usually needed death in order to explain the meaning of life. Like in Christianity – without death, life has no meaning. The whole meaning of life comes from what happens to you after you die. There is no death, no heaven, no hell… there is no meaning to Christianity. But over the past three centuries we have seen the emergence of a lot of modern ideologies such as socialism, liberalism, feminism, communism that don’t need death at all in order to provide life with meaning.

Sapiens and Homo Deus are published by Vintage at £9.99 and £8.99. To order copies for £8.49 and £7.64 respectively go to bookshop.theguardian.com or call 0330 333 6846. Free UK p&p over £10, online orders only. Phone orders min p&p of £1.99