Por: Patricia Fachin | 19 Abril 2017

O crescimento do pentecostalismo é um fenômeno que se expande para além da religião: ele “cresce ao mesmo tempo na base social e em espaços de poder, como mídia e cargos eletivos nacionais, estaduais e municipais”, diz a socióloga Christina Vital à IHU On-Line, na entrevista a seguir, concedida por e-mail. Um exemplo “bem-sucedido” dessa expansão na política, aponta, foi a vitória de Marcelo Crivella nas eleições municipais do Rio de Janeiro. “Quando Crivella foi eleito, a grande repercussão na mídia enfatizava aquela como uma vitória de sua denominação de origem. Mas não é esse o ponto: ele ganhou não por ser evangélico, mas porque fez inúmeras alianças na sociedade e tinha uma fala que contemplava anseios sociais. Teve alta votação em periferias, mas também ganhou em bairros da Zona Sul, como em Ipanema”, relata. Contudo, frisa, ainda é cedo para avaliar “em que medida o elemento religioso faz diferença nesse âmbito da gestão pública, porque o fato de a pessoa ter uma vinculação religiosa não necessariamente implica um atravessamento religioso institucional”.

Há décadas a socióloga tem acompanhado e estudado as periferias cariocas, especialmente na Zona Norte e na Baixada Fluminense. A partir da sua experiência, ela também comenta brevemente os dados da recente Pesquisa da Fundação Perseu Abramo, e pontua que entre os moradores das periferias cariocas “identificam-se esses valores liberais em termos econômicos”, mas “não em termos morais”.

Ela explica: “Isso é fruto de diferentes fatores, dentre os quais podemos destacar as inúmeras políticas urbanas e habitacionais que, embora precárias e insuficientes diante das demandas, produziram uma situação melhor do que a precariedade que marcava o início das ocupações em favelas e em periferias na Baixada Fluminense, por exemplo. Nos anos 1980 havia os mutirões nos quais moradores se reuniam em torno da ajuda aos outros. O contexto hoje é distinto em termos da estrutura física dessas localidades. Outro fator importante é o crescimento difuso de valores neoliberais em nossa sociedade e da Teologia da Prosperidade, que se apresenta não só nas denominações identificadas como neopentecostais, mas também se apresenta em denominações mais clássicas do pentecostalismo no Brasil”.


Christina Cunha durante evento no IHU
Foto: João Flores da Cunha | IHU

Christina Vital Cunha é professora do Programa de Pós-graduação em Cultura e Territorialidades da Universidade Federal Fluminense – PPCULT e do Departamento de Sociologia da mesma universidade. É doutora em Ciências Sociais pelo PPCIS/UERJ e mestra em Antropologia e Sociologia pelo IFCS/UFRJ. Integra a equipe de pesquisadores da Rede de Pesquisadores Luso-Böll Brasileiros de Artes e Intervenções Urbanas, coordenada por Glória Diógenes (UFC) e Ricardo Campos (Universidade Nova de Lisboa) e o grupo Religião, arte, materialidade, espaço público: grupo de antropologia, coordenado por Emerson Giumbelli (PPGAS-UFRGS). É autora dos livros Religião e Conflito, Ed. Prismas, 2016, em parceria com Melvina Araújo; Oração de Traficante: uma etnografia, Ed. Garamond, 2015; Religião e Política: uma análise da participação de parlamentares evangélicos sobre o direito de mulheres e de LGBTs no Brasil, 2012, em parceria com Paulo Victor Leites Lopes. É colaboradora ad hoc do Instituto de Estudos da Religião – ISER, desde 2002.

Juntamente com Paulo Victor Leite Lopes e Janayna Lui, Christina Vital Cunha acaba de publicar o livro Religião e Política: medos sociais, extremismo religioso e as eleições de 2014, Fundação Heinrich Böll: Instituto de Estudos da Religião, Rio de Janeiro, 2017.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Em quais periferias cariocas a senhora desenvolve a sua pesquisa?

Christina Vital – As pesquisas de iniciação científica, mestrado e doutorado foram em Acari e, posteriormente, no Santa Marta. No entanto, realizei trabalho de campo em outras localidades, ora como pesquisadora, ora como coordenadora, no projeto Favela Tem Memória, IBGE, Banco Mundial etc. As localidades são: Mangueira, Cantagalo e Pavão-Pavãozinho, Alemão, Vigário Geral, Conjuntos Habitacionais na Zona Norte e em favelas da Baixada Fluminense.

IHU On-Line – A partir das pesquisas que desenvolve nas periferias do Rio de Janeiro, como diria que a religiosidade ou a religião se manifesta na vida das pessoas que vivem na periferia?

Christina Vital – As religiões são experimentadas de diferentes modos, mais ou menos orgânicos. Isto é, as pessoas vivem, ao longo de suas trajetórias pessoais, momentos de maior ou menor engajamento junto a instituições e grupos religiosos. Contudo, a dimensão religiosa é muito significativa, seja em termos de estabelecer marcadores temporais e de sociabilidade, seja na economia ou na política.

IHU On-Line – A cultura pentecostal é predominante nas periferias hoje? Por quê? Há uma razão que explique por que as pessoas aderem ao pentecostalismo e não a outras religiões?

Christina Vital – O pentecostalismo é crescente nas cidades e nestes espaços, sobretudo em áreas periféricas e em favelas, e as estatísticas possibilitam essa identificação, além da observação direta realizada por uma gama crescente de pesquisadores que acompanham esse fenômeno.

As razões deste crescimento são muitas. Desde estratégias propriamente institucionais até os anseios privados, que giram em torno de demandas motivacionais. Por exemplo, as igrejas evangélicas estabelecem uma proximidade com o seu público, proporcionam espaços de encontro diários, fazem aconselhamentos espirituais, mas também emocionais e financeiros/profissionais. Seus pastores são, via de regra, muito disponíveis aos fiéis. Geralmente moram nas mesmas áreas e estabelecem grande empatia porque vivem condições muito semelhantes aos demais. Do ponto de vista institucional, como a maioria tem um modelo de governo congregacional, não precisam se subordinar a um ministério, nem a uma centralidade administrativa.

IHU On-Line – Essa cultura ou adesão pentecostal se expressa em outras esferas da vida das pessoas que vivem nas periferias, como a comportamental, política, social etc.? De que modo?

Christina Vital – Sem dúvida. Qualquer experiência religiosa é englobante e se manifesta na relação com diferentes dimensões da vida pública das pessoas. Sobretudo em se tratando de religiões monoteístas. Sendo assim, observamos o crescimento da participação de pentecostais na organização política local, social e também econômica, com a abertura de variados comércios com uma marca gospel e que difere, por exemplo, do comércio que sustentava o circuito do tráfico até meados dos anos 1990.

IHU On-Line – Como a senhora compreende o fenômeno do pentecostalismo no Brasil hoje? Ele é já é quase dominante no âmbito das religiões? Por quê?

O catolicismo é dominante no Brasil em diferentes aspectos, mas o pentecostalismo cresce ao mesmo tempo na base social e em espaços de poder, como mídia e cargos eletivos nacionais, estaduais e municipais

Christina Vital – O catolicismo é dominante no Brasil em diferentes aspectos, mas o pentecostalismo cresce ao mesmo tempo na base social e em espaços de poder, como mídia e cargos eletivos nacionais, estaduais e municipais. Sendo assim, ganham muita visibilidade, embora, em termos percentuais, sejam minoritários em relação aos católicos.

IHU On-Line – Alguns pesquisadores têm defendido que em nenhuma organização política, incluindo os coletivos de esquerda, a mulher e o homem comum têm tanto e tão rápido protagonismo quanto em uma igreja evangélica pentecostal e que as comunidades religiosas são a maior experiência de empoderamento individual e coletivo das classes populares das periferias. Concorda? Como isso se manifesta nas periferias que você conhece?

Christina Vital – Isso é muito verdadeiro e apresenta aspectos muito positivos em termos das vidas individuais e de transformações coletivas que vão em diferentes sentidos: desde uma ação mais engajada de esquerda até ações mais afinadas com interesses neoliberais.

IHU On-Line – Que outras expressões religiosas estão presentes na periferia e qual é a adesão das pessoas a elas?

Christina Vital – As religiões afro-brasileiras ainda estão presentes em favelas e periferias. São minoritárias em termos do impacto coletivo e de ocupação do espaço público, mas existem e resistem a inúmeras situações de violência patrimonial contra elas, assim como violências morais que atingem lideranças e adeptos. Mas, para além de um contexto social presente que escancara a intolerância em relação a essas tradições, pesa o fato de que não são religiões de conversão, de salvação e por isso não disputam mesmo esses espaços de poder. São religiões conhecidas como do segredo.

IHU On-Line – Em outra entrevista que nos concedeu, a senhora mencionou que tem havido um movimento de formação de espaços de oração islâmica nas favelas e algumas pessoas estão se convertendo ao islã. Como e desde quando tem ocorrido esse processo? Por quais razões as pessoas estão se convertendo?

Christina Vital – Não sou especialista em islamismo. Outros pesquisadores no Brasil teriam mais dados. Mas ocorre que em algumas periferias urbanas, o crescimento do islamismo vem sendo identificado, como, por exemplo, em São Paulo. As razões, como em qualquer fenômeno social, podem ser muitas: desde um desejo de vinculação institucional que proporcione segurança até o sentido de integração a um movimento novo, desafiador e que tem grande proporção internacional.

IHU On-Line – Um dos temas da sua investigação é a atuação do tráfico nas periferias. Como o tráfico se estrutura e atua nas periferias e de que modo ele interfere na vida das pessoas?

Todas as favelas e periferias são controladas por alguma força armada legal ou ilegal

Christina Vital – Todas as favelas e periferias são controladas por alguma força armada legal ou ilegal. Mais ilegal. Ou seja, a vida das pessoas nessas áreas é sempre marcada por uma perspectiva de guerra, de conflito. As armas estão sempre presentes e o medo de mudanças abruptas na sociabilidade está na ordem do dia. Há diferenças em termos de atuação dos bandos armados, logo, de traficantes e milicianos. Não incorreria no erro de sinalizar qual é melhor para a vida local, porque não é disso que se trata. Todas elas são nocivas. Em termos de estratégias, há coisas comuns: controle territorial com vistas a se protegerem das investidas policiais e de outros bandos armados. Esse controle passa também, em muitos casos, por uma tentativa de produção de relações de “boa vizinhança” e agrados à comunidade imaginada das favelas e periferias.

IHU On-Line – Alguns especialistas têm alertado para a ocupação dos conjuntos habitacionais do Minha Casa Minha Vida pelo tráfico. Isso tem acontecido nas periferias do Rio de Janeiro?

Christina Vital – Não só o tráfico, mas, talvez de modo mais significativo, as milícias. Esta conformação se apresenta como um enorme desafio à política pública, porque os modos de ação são intimidadores e de uma força absolutamente desigual. A insegurança se torna grande e, neste sentido, novamente, as religiões se apresentam como um recurso fundamental na produção de redes de proteção e segurança espiritual e material.

IHU On-Line – Uma recente pesquisa da Fundação Perseu Abramo indica que os moradores das periferias aderem a valores como o individualismo, a competitividade, a ascensão pelo mérito e trabalho, a eficiência etc. Esses valores devem ser vistos como isolados ou ao lado deles são cultivados outros, como o de solidariedade ao ajudar o vizinho, por exemplo?

Christina Vital – Sem dúvida há uma convivência de valores, contudo, em termos de predomínio, identificam-se esses valores liberais em termos econômicos, não em termos morais. Isso é fruto de diferentes fatores, dentre os quais podemos destacar as inúmeras políticas urbanas e habitacionais que, embora precárias e insuficientes diante das demandas, produziram uma situação melhor do que a precariedade que marcava o início das ocupações em favelas e em periferias na Baixada Fluminense, por exemplo. Nos anos 1980 havia os mutirões nos quais moradores se reuniam em torno da ajuda aos outros. O contexto hoje é distinto em termos da estrutura física dessas localidades. Outro fator importante é o crescimento difuso de valores neoliberais em nossa sociedade e da Teologia da Prosperidade, que se apresenta não só nas denominações identificadas como neopentecostais, mas também se apresenta em denominações mais clássicas do pentecostalismo no Brasil.

IHU On-Line – As pautas da esquerda ainda podem oferecer um horizonte para as pessoas que vivem nas periferias?

Christina Vital – Certamente, mas vive o desafio de combinar uma pauta liberal em termos morais com os anseios de uma camada social que é majoritariamente conservadora nesses termos. Para além disso, terá que mobilizar as massas por um discurso que combine perspectivas democráticas, participativas, mas que fale aos corações das pessoas. Identificar sentimentos sociais e dialogar com eles é uma estratégia fundamental e que a esquerda não deve ter medo em mobilizar como um instrumento legítimo de assumir o poder, se é esta mesma a pretensão e não somente “marcar posição”. Isso vale, sobretudo, para cargos executivos.

IHU On-Line – Como analisa a vitória de Marcelo Crivella na última eleição municipal do Rio de Janeiro?

Christina Vital – A candidatura de Marcelo Crivella foi significativa nesse contexto de novas estratégias de ascensão evangélica no poder. Em 2014 o bispo Robson Rodovalho, que é da Igreja Sara Nossa Terra, fez uma carta à sociedade brasileira, dizendo que os evangélicos que ontem eram pedintes, hoje são negociadores, ou seja, ele falava de um novo lugar dos evangélicos na sociedade e de uma nova estratégia de poder, de ocupação de cargos executivos. Em 2016 eles acompanharam várias candidaturas às prefeituras e a eleição de Crivella no Rio de Janeiro foi uma dessas candidaturas que teve sucesso. Estamos acompanhando em que medida o elemento religioso faz diferença nesse âmbito da gestão pública, porque o fato de a pessoa ter uma vinculação religiosa não necessariamente implica um atravessamento religioso institucional.

A gestão de Crivella ainda teve pouca visibilidade em termos de ações políticas. Havia uma grande expectativa quanto à gestão dele. No dia da posse ele assinou 39 decretos, doou sangue, e todo mundo achou que ele faria uma série de ações na sequência. Talvez até no mesmo estilo de Doria, em São Paulo, apostando em uma grande exposição na mídia. No entanto, isso não se concretizou e suas poucas aparições têm sido apresentadas negativamente por analistas políticos e colunistas. Há sempre um tom acusatório e duvidoso em torno de sua capacidade política e administrativa.

No geral, para a prefeitura as pessoas querem “um síndico” para executar ações, resolver problemas cotidianos, e ele se apresentava como o candidato que chegava para resolve

Quando Crivella foi eleito, a grande repercussão na mídia enfatizava aquela como uma vitória de sua denominação de origem. Mas não é esse o ponto: ele ganhou não por ser evangélico, mas porque fez inúmeras alianças na sociedade e tinha uma fala que contemplava anseios sociais. Teve alta votação em periferias, mas também ganhou em bairros da Zona Sul, como em Ipanema. Outra questão é que, no geral, para a prefeitura as pessoas querem “um síndico” para executar ações, resolver problemas cotidianos e ele se apresentava como o candidato que chegava para resolver, em contraposição ao candidato opositor no segundo turno, que tinha mais um discurso exaltando a participação popular. Além disso, ele estava no décimo pleito e, do ponto de vista político, isso é importante, porque ele já era um nome conhecido. Elaborava, ainda, um discurso centrado no cuidado na gestão, cuidado com as pessoas, e todo mundo que já foi pobre ou já pesquisou em periferias sabe como as pessoas se sentem abandonadas e preteridas pelo poder público. Seu apelo ao cuidado, novamente, calou forte com os anseios públicos.

IHU On-Line – Diria que a participação dos católicos é menos visível do que a dos evangélicos no Congresso?

Christina Vital – Hoje existem três frentes religiosas no Congresso. A Pastoral Parlamentar Católica, de 1991, tinha uma atuação que é característica da atuação católica, que era feita sem cargos diretos, ou seja, era uma política feita por influências. Em 1993, surgiu a Frente Parlamentar Evangélica, que foi reestruturada em 2003, e hoje tem sete agendas de interesses, sendo que cada uma delas têm um assessor e um parlamentar responsável. Existe ainda a Frente Parlamentar de Terreiros, que foi criada em 2011, e a Frente Parlamentar Católica, de 2015, que é diferente da Pastoral Parlamentar Católica, ou seja, ela é confessional e bastante conservadora. Essa Frente é liderada pelo deputado Givaldo Carimbão (PROS-AL) e foi espelhada na Frente Parlamentar Evangélica. Em seus primeiros pronunciamentos, Carimbão disse que os objetivos da Frente eram proteger a Bíblia dos ataques que a Constituição fazia a ela, operando por uma retorsão do argumento. Quer dizer, se o movimento social e diferentes atores na sociedade dizem que os cristãos estão comprometendo as garantias constitucionais ao defenderem essas agendas morais ditas como “agendas do Reino”, ele diz o contrário, articulando a mesma base argumentativa.

IHU On-Line – Mas essa frente não tem muita visibilidade?

Christina Vital – Sim, não tem. Em parte por uma razão que a pesquisadora Magali Cunha já veio mostrando: na mídia chamada de massa, as aparições católicas são majoritariamente positivas, em contraposição às evangélicas, por exemplo, quase sempre negativas. E isso não é um espelho da realidade. Trata-se de uma opção narrativa. Por outro lado, em meio ao próprio catolicismo institucional, há críticas à Frente Parlamentar Católica, embora a fundação da Frente tenha sido feita em meio a uma cerimônia organizada pela CNBB da qual participaram 40 deputados e na qual tomou posse o presidente da FPC, Givaldo Carimbão, em maio de 2015.

IHU On-Line – Que cenários vislumbra para as eleições de 2018, considerando o que seu grupo de pesquisa está pesquisando sobre a relação entre política e religião?

Christina Vital – O cenário ainda é incerto, mas Bolsonaro é uma figura que já vem tentando se candidatar à presidência desde 2010. Em 2014 houve nova tentativa, sem sucesso. Algum tempo depois, foi batizado no Rio Jordão pelo pastor Everaldo, da Assembleia de Deus de Madureira, presidente do PSC, partido ao qual se filiou. Seu nome foi lançado à Presidência da República em 2018, mas há muitas controvérsias em torno. É preciso acompanhar.

IHU On-Line – Em que consiste sua pesquisa sobre amorificação?

Christina Vital – Venho acompanhando inscrições religiosas nas cidades e a formação de uma paisagem amorificada. Esse tipo de inscrição ficou bastante conhecido no Rio de Janeiro desde os trabalhos do poeta Gentileza. Ele fez várias inscrições em pilares de viadutos no Rio de Janeiro. Ele usava vestes brancas, tinha um cabelo comprido e era considerado “louco” por muitos, até o momento em que, no âmbito da cultura, as pessoas começaram a ver um potencial no trabalho, em inscrições tais como “Gentileza gera gentileza”. A obra dele foi tombada pela prefeitura do Rio nos anos 2000.

Eu acompanho grafites “amorificados” na cidade, inicialmente buscando compreender relações entre arte e religião. Mais recentemente buscando entender como o amor se manifesta no espaço público em diferentes modalidades: política institucional, mercado, religião, uma linguagem para reivindicar transformação social. Para isso, acompanho trabalhos e trajetórias artísticas de alguns grafiteiros na cidade de variadas camadas sociais.

IHU On-Line – Quem são os grafiteiros com quem trabalha?

O grafite sempre foi alvo de ações públicas que visavam ora a sua regulação, ora ao seu desaparecimento

Christina Vital – Acompanho os trabalhos de Wark da Rocinha, Meton Jofilly, Rafael Hiran, André Soldado, Zanon, Villas, Bernardo Norte, Zoup, Ment, entre tantos outros. Eles têm variadas origens sociais e cada um tem sua marca estética, cada um produz uma identidade visual a partir de sua arte.

IHU On-Line – Como vê a posição do prefeito Doria, de limpar a cidade?

Christina Vital – O grafite sempre foi alvo de ações públicas que visavam ora a sua regulação, ora ao seu desaparecimento. Estas políticas emergem em onda ora de desvalorização, ora como meio de identificação pública das cidades para fora. Doria está investindo na “ordenação” da cidade apagando inscrições históricas, algumas reconhecidas internacionalmente como expressão artística absolutamente original. Neste caso em especial, justamente aquelas inscrições em preto identificadas por boa parte da população citadina como “sujeira”, “poluição visual”: o “pixo”. Eduardo Paes já produziu ações de “limpeza” de muros da cidade, mas, do meio para o fim de sua gestão, identificou no grafite uma linguagem importante na arte contemporânea, na street art, como um meio de apresentar a cidade como um espaço moderno, arrojado. Assim, a linguagem visual da Cidade Olímpica, por exemplo, foi o grafite.

Assista ao vídeo da conferência Cultura pentecostal no Brasil contemporâneo: periferias urbanas em foco, proferida por Christina Vital, em 03-04-2017: